Editorial

Abas primárias

A Fome, a Farinata e o desperdício de alimentos

A promulgação da lei 16.704/ 2017, sancionada pelo Prefeito João Doria, que estabelece a Política Municipal de Erradicação da Fome e da Promoção Social dos Alimentos, e o anúncio de uma parceria entre a Prefeitura da Capital Paulista e a Plataforma Sinergia como parte da nova política municipal para suprimir a fome, denominada “Alimento para todos”, gerou polêmica no âmbito da opinião pública. 

Nas redes sociais e em alguns veículos de comunicação, críticos do projeto apressaram-se em classificar aquilo que, originalmente, foi idealizado como uma ajuda para fazer frente aos problemas da fome e da desnutrição que afetam milhões de pessoas em situação de miséria, pobreza e risco alimentar em São Paulo e no Brasil, como “ração para os pobres” e um “atraso de 15 anos na política alimentar”, alegando que os alimentos produzidos com a Farinata afetam a dignidade da pessoa humana.

Muitas dessas críticas procedem talvez da falta de informações. Outras, de instrumentalização política de um projeto, que em realidade, nasceu em 2013 e não foi criado pelo Prefeito João Doria. 

Um vídeo que foi recentemente divulgado nas mídias sociais mostra com cruel realismo, para além das visões e soluções “ideais” para o problema da fome, a vida como ela é: uma mãe de família, em situação de extrema pobreza, com um filho na cadeia por ter cometido um crime de latrocínio, alimentando seus outros  filhos com alimentos vencidos que conseguiu coletar vasculhando lixos.

Desidratar e processar alimentos que seriam descartados, apesar de aptos ao consumo humano, por meio de uma tecnologia, que, segundo a Plataforma Sinergia, é segura e conserva as propriedades nutritivas dos alimentos, permitirá que possam ser usados tanto como matéria prima para a confecção de pães, bolos, biscoitos, sopas etc  quanto como puro e simples complemento alimentar a ser adicionado em alimentos in natura . Essa solução pode não ser a ideal, mas não é o mesmo que distribuir ração para os pobres; ao contrário, ela é uma ajuda para erradicar a fome, que é, esta sim, indigna da condição humana. Além disso, a nova política não afeta necessariamente outras políticas alimentares que promovam a distribuição de alimentos em sua forma natural. Dizer isso não é defender propostas partidárias ou de políticos em exercício de sua função, porque a questão em foco é o combate à fome. 

Conforme noticiou o jornal O SÃO PAULO em sua edição 3171, diante da polêmica gerada, “o Cardeal Odilo Pedro Scherer reiterou a alguns jornalistas, na segunda-feira, 16, que apoia a iniciativa da Plataforma Sinergia” porque atende a três necessidades: “o enfretamento da fome, a questão ambiental e o combate ao desperdício de alimentos”. A matéria do jornal recorda, ainda, que 7 milhões de pessoas passam fome diariamente no Brasil, enquanto aproximadamente 41 mil toneladas de alimento são desperdiçadas no País. 

Diante desse quadro, são justos os protestos do Arcebispo de São Paulo: “O direito dos pobres é não passar fome, o direito dos pobres é ter alimentos. Não se pode dizer, é certo, que a Farinata é alimento total para os pobres. Não é. É uma possibilidade a mais de alimento, que de outra maneira iria para o lixo, com todos os inconvenientes ambientais e do escândalo do desperdício”. 

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