Jornal o São Paulo

Editorial

Arte sacra, portal para o Mistério

Em 2006, o Pontifício Conselho para a Cultura publicou Via pulchritudinis [Via da beleza], caminho privilegiado de evangelização e diálogo. Reafirmava, com esse documento, a longa tradição que une Cristianismo e beleza. Amor e verdade, quando não se manifestam também em sua beleza, mostram-se reduzidos, enfraquecidos em sua capacidade de transformar e transfigurar a realidade. Por isso, o encontro com Cristo, pessoal e comunitário, sempre foi um evento belo e fascinante. 

A arte sacra é, ao mesmo tempo, registro e educação da beleza desse encontro. Registra, em formas, cores, palavras e sons, a presença maravilhosa de Deus na criação e na história humana e Seu amor por nós. Ao mesmo tempo, nos educa, não pela reflexão sobre conceitos abstratos, mas pela contemplação da própria beleza, a viver em sintonia com o mistério de Deus no mundo.

Os ícones do início do Cristianismo, que são pintados até hoje nas Igrejas Católicas do Oriente, eram realizados segundo regras precisas, por artistas que eram grandes místicos, pois a obra não era produto do artista, mas do Espírito que se manifesta na Igreja, por meio do artista.

A iconografia de muitas igrejas medievais era chamada de Biblia Pauperum [Bíblia dos pobres], pois permitia aos iletrados conhecer e recordar a história da Salvação vendo as imagens pintadas nos templos. Para isso, as imagens não podiam ser feitas simplesmente ao gosto do artista ou do sacerdote, mas tinham de ser pensadas e encadeadas de forma a permitir essa utilização. Assim, infelizmente, a comunidade cristã muitas vezes perdeu essa percepção educativa da arte sacra. Imagens, músicas e pregações se tornaram, ao longo da história, cada vez mais devocionais, refletindo a subjetividade dos fiéis, mais do que a objetividade do mistério de Deus.

A existência de uma arte devocional no contexto da vida cristã não é um mal em si. Pelo contrário, trata-se de uma das tantas formas pelas quais se dá a comunicação entre Deus e o humano. Além disso, grande parte das obras de arte da tradição cristã pode ser considerada devocional. O problema acontece quando nossa relação com Deus passa a ser determinada exclusivamente por nossa sensibilidade, quando perdemos nossa capacidade de nos educarmos para a beleza objetiva que transmite o amor de Deus no mundo.

Na mais pura arte sacra, mostra-se o mistério de Deus – e nós nos deixamos silenciar para ver e ouvir sua beleza. Esse é um processo educativo, por meio do qual aprendemos a ver Sua presença no mundo. Por isso, a Igreja não pode deixar de estar aberta à arte sacra e ao belo. Felizmente, existem muitas pessoas que nos ajudam nessa “via da beleza”, como mostrado nesta edição do O SÃO PAULO .
 

Para pesquisar, digite abaixo e tecle enter.