Espiritualidade

Abas primárias

Duas mesas, duas possibilidades, uma escolha

“Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: ‘Segue-me!’ E ele levantou-se e seguiu-o.” (Mt 9,9)

Do encontro com Jesus sempre surge um convite, que leva a uma atitude concreta. Assim foi o encontro de Jesus e Mateus, um cobrador de impostos - uma categoria discriminada pelo povo. Discriminada porque a cobrança de impostos era vista como uma forma de exploração e como uma quebra da fraternidade. Onde estava Mateus? Estava sentado em sua “mesa” de trabalho, onde tomava nota dos impostos cobrados. 

Para os fariseus, o que interessa é a realidade do pecado: a “mesa” do cobrador de impostos. Para Jesus, ao contrário, o que realmente vale a pena ser visto é a pessoa. Quando Jesus passa, a primeira realidade que vê é a do homem, “um homem chamado Mateus”. A esse homem sentado, junto à “mesa” da exploração,  Jesus fez um convite: “Segue-me”. 

Do encontro pessoal nasceu a exigência da escolha e da tomada de posição, “e ele se levantou”. Para Mateus, isso significa colocar-se em pé. Colocar-se em posição de alguém que se decidiu por alguma coisa e não está mais preso. Colocando-se nessa posição, Mateus assume a condição de ressuscitado, de alguém que deixou a morte e passou à vida. Essa é a posição de Lázaro quando sai do túmulo (Jo 11,44), a posição do enfermo de Betesda (Jo 5,9), e, ainda, a atitude da mulher pecadora na presença de Jesus e de seus acusadores (Jo 8,9). Cada um deles, à sua maneira, foi chamado para a vida, para a liberdade. Para Mateus, isso significou que ele devia deixar a “mesa” da cobiça para viver como discípulo, na liberdade.

Ao mesmo tempo em que propõe a renúncia daquela “mesa”, Jesus apresenta uma outra, a da partilha: “Encontrando-se Jesus à mesa em sua casa, numerosos cobradores de impostos e outros pecadores vieram e sentaram-se com Ele e seus discípulos”. Numa refeição se partilha mais do que alimento: é o momento do encontro com o outro, em que se pode partir e repartir a própria vida. É por isso que quando celebramos uma data que relembra a vida, fazemos questão de também partilharmos o alimento, como, por exemplo, um bolo de aniversário, mesmo que seja simples. O encontro com Jesus é sempre uma celebração da vida, e nessa “mesa”, há lugar e alimento para todos. 

Mas, os fariseus não pensam assim: “Os fariseus, vendo isso, diziam aos discípulos: ‘Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?’”. Em qualquer situação, a primeira coisa que eles veem é sempre a condição do homem pecador.

A “mesa” da exploração e do pecado dá lugar à “Mesa da Vida”, mas dela só pode participar quem consegue enxergar que em primeiro lugar está a pessoa. A “mesa” é um lugar teológico do encontro fraterno, da doação, da entrega do amor e da partilha. Sinal máximo dessa realidade é a “Mesa da Eucaristia”, onde Jesus se dá em alimento. Mas, como partilhar dessa “Mesa da Eucaristia”, sem deixar aquela outra? Ou, melhor, como receber o Corpo de Cristo sem assumir uma nova postura? Se existem duas mesas, duas possibilidades, qual é a nossa escolha?

 

Dom Devair Araújo Da Fonseca
Bispo Auxiliar da Arquidiocese na Região Brasilândia e
 Vigário Episcopal Para A Pastoral Da Comunicação
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