Jornal o São Paulo

Editorial

Nossa Betsaida

O fenômeno se repete todos os dias, onde quer que estejamos, o que quer que façamos: “Bom dia”, você diz ao atendente; “CPF na nota?”, ele responde. Você sorri meio sem jeito, nega e tenta de novo: “Tudo certo?”. A resposta é imediata, como que programada: “Vai querer sacola?”.

Não nos vemos uns aos outros, ocupados que estamos com o fluxo ininterrupto de nossas vidas na cidade, com o próximo compromisso de nossas agendas, com o toque do celular. Corremos atrás de sombras e desperdiçamos nossa atenção com ruídos, cegos ao que realmente se passa ao nosso redor. 

Essa sensação — de que não vemos as pessoas, e de que não somos vistos por elas — lembra-nos o que São Marcos conta sobre o cego de Betsaida, a quem Jesus, antes de curar, guia pela mão até o lado de fora da aldeia. O Senhor toca seus olhos uma primeira vez, e o cego Lhe diz que vê as pessoas — mas como árvores andando. Nós, presos na aldeia, longe de Cristo e da lembrança de Sua presença, também nos tornamos cegos para o que realmente se passa à nossa volta, conosco e com aqueles ao nosso redor — sejam distantes, como o atendente do diálogo, ou próximos, como nossos familiares. Olhamos, mas não vemos; não de verdade.

A cegueira e esta vida de imagens difusas encontram seu antídoto na presença do sagrado. Quando vamos à Santa Missa — ou mesmo antes, quando entramos na igreja e voltamos nossa atenção a Jesus no sacrário —, Deus estende a mão a cada um de nós e nos oferece uma alternativa: em Cristo e nos sacramentos que Ele nos deixou, encontramos um refúgio de ordem, beleza e verdade neste mundo de caos e barulho. Em Cristo, nossas almas descansam e assim podem, por meio Dele, enxergar. 

Quando Jesus toca os olhos do cego a segunda vez e, enfim, o homem fica restabelecido, Ele o adverte: “Não entres na aldeia!”. Vivemos, fisicamente, na aldeia à qual Cristo se refere — mas não podemos nos render a ela por inteiro. Se nos deixamos ser tragados pela lógica da metrópole, pela lógica do mundo, cheio de luzes, ruídos e falsas promessas, é natural que nos tornemos insensíveis, cegos para a vida ao nosso redor. 

Mas não podemos estar o tempo todo dentro das igrejas. Temos família; temos empregos que exigem nosso tempo e nossa atenção. Isto é verdade. Mas é verdade, também, que, conscientes de que nossas vidas não são — ou não deveriam ser — apenas uma sequên- cia de compromissos numa agenda, mantemo-nos atentos ao eco do sagrado por trás de cada gesto, e encontramos Cristo em nós e ao nosso redor. 

Assim, lembrando-nos de que podemos sempre, como Santo Agostinho, “inclinar nossa alma para Ele numa aspiração”, percebemos o verdadeiro fenômeno que se repete todos os dias, onde quer que estejamos, o que quer que façamos: Cristo oferecendo a mão para nos guiar até o lado de fora da aldeia, onde abre nossos olhos e nos permite ver tudo claramente.
 

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