Editorial

Abas primárias

Superar a segregação

A comemoração do Dia da Consciência Negra, na última segunda-feira, 20 de novembro, vem cercada de polêmicas. Muita gente acusa a comemoração de demagógica e desnecessária, num País miscigenado, com uma população cordial e pouco preconceituosa. 

Tanto a miscigenação quanto a famosa cordialidade brasileira são reais, sem dúvida. Brasileiros no exterior e estrangeiros no Brasil reconhecem esse fato. Infelizmente, a miscigenação não gera igualdade – pelo contrário, tanto o estigma social quanto as dificuldades socioeconômicas se mantêm na população “parda” (para usar a nomenclatura adotada pelo IBGE). Já a cordialidade tem muito de ideológica e acaba ocultando as muitas mazelas de uma sociedade que não trabalha bem com suas injustiças e desigualdades sociais.

A situação dos negros e pardos no Brasil é a evidência mais clamorosa dessa contradição entre uma sociedade que se imaginava cordial, livre de preconceitos e sincrética, mas que na prática permanece desigual, preconceituosa e excludente. Se imaginava ainda igualitária, mas hoje a autoconsciência da sociedade brasileira mudou. 

A grande maioria de nossa população reconhece a discriminação e as desigualdades raciais como fatos e problemas a serem superados. Contudo, uma enorme distância permanece entre o reconhecimento da situação e a sua superação efetiva. Do ponto de vista cultural, manifesta-se a ruptura entre público e privado comum em várias esferas da vida brasileira: a grande maioria da população reconhece publicamente que não deveria haver racismo no Brasil; mas, na vida privada, mantém seus preconceitos e se comporta a partir deles.  Do ponto de vista socioeconômico, os dados são bem conhecidos: negros e pardos representam 54% da população brasileira, mas representam apenas 30% dos que estão “no topo da pirâmide” (os 10% mais ricos) e 74% dos que estão “na base” (os 10% mais pobres).

A comparação com os Estados Unidos não pode deixar de nos escandalizar... Trata-se de um país onde o racismo e a segregação racial são muito mais fortes do que no Brasil. Conflitos raciais explícitos e graves ainda hoje acontecem lá. Contudo, lá houve um presidente afrodescendente: Barack Obama. 

Grande parte das melhores condições da população negra norte-americana pode ser creditada às condições socioeconômicas da população dos Estados Unidos. Boa parte, por outro lado, se deve à adoção, já na década de 1960, quando os conflitos raciais eram muito mais intensos naquele país, de ações sociais afirmativas para combater as desigualdades sociais (coisa que só aconteceu no Brasil nas últimas décadas, após a promulgação da Constituição de 1988). 

Ainda polêmicas no Brasil, essas ações – como a políticas de quotas nas universidades – têm se mostrado úteis e os dados estatísticos mostram que grande parte dos receios em relação a elas não são pertinentes. Estudos mostram que os estudantes quotistas têm rendimento até superior aos não quotistas, desde que recebam um acompanhamento adequado. O perigo de uma “discriminação reversa”, que prejudicasse particularmente os brancos pobres, vem sendo superado com a combinação de quotas étnicas e quotas por critérios socioeconômicos.

No conjunto, essas ações significam um ganho para o bem-comum, pois ajudam uma grande parte da população a colaborar ainda mais para o desenvolvimento econômico e social de toda a Nação. Devem, contudo, ser bem planejadas e executadas, pois políticas sociais ineficientes não atingem seus objetivos esperados.

No Brasil, a ineficiência de muitas políticas públicas não pode ser usada para que elas deixem de existir – inclusive porque é melhor tê-las, mesmo quando ineficientes, do que não tê-las A questão aqui é sempre melhorá-las. A política de quotas, apesar dos sucessos alcançados, não elimina a necessidade de se melhorar a qualidade do ensino nas escolas públicas, por exemplo. 

Deus não fez uma etnia superior a outra. Todos os estudos científicos que um dia tentaram justificar a superioridade de uma etnia sobre as demais se mostraram falsos ao longo dos anos. Cabe a cada um de nós viver essa verdade no fundo de nosso coração e agir segundo ela.
 

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