Fé e Cidadania

Abas primárias

Papa Paulo VI e a mobilidade humana

No dia 14, o Papa Paulo VI e Dom Oscar Romero serão canonizados em solenidade presidida pelo Papa Francisco. Ambos convergem no empenho pela justiça, o direito e a paz. Momento oportuno para retormar a visão de Paulo VI sobre o fenômeno da mobilidade humana.

Em 4 de maio de 1978, Paulo VI aprovou o documento “A Igreja e a Mobilidade Humana”, elaborado pela Pontifícia Comissão para a Pastoral das Migrações e do Turismo. Citemos literalmente algumas expressões do texto. Vivemos em “uma nova época”, na qual “a mobilidade humana é, ao mesmo tempo, causa e efeito da era técnica e científica, que alguns definem pós-industrial (...). Trata-se de um fenômeno muito complexo e articulado. Estamos diante de “um mundo em evolução” em que “a economia se tornou planetária, o mundo se tornou pequeno, as fronteiras tendem a cair (...) Vivemos todos numa única aldeia” (IMH, parte I). 

Referindo-se igualmente à temática das migrações, o Pontífice já havia publicado duas cartas apostólicas, uma sobre o cuidado apostólico para com os migrantes (1969) e outra sobre a pastoral das migrações e do turismo (1970). Isso sem falar de sua contribuição decisiva à formulação da Gaudium et Spes (1965), na qual se lê: “O gênero humano encontra-se em uma fase nova de sua história, na qual mudanças profundas e rápidas estendem-se progressivamente ao universo inteiro” (GS, 4). Dois anos depois, na Encíclica Populorum Progressio (1967), insiste que “o desenvolvimento integral é o novo nome da paz” (cf. PP 87).

Sua visão ampla e lúcida da realidade pode ser atestada no documento “Justiça no Mundo”: “A ação pela justiça e a participação na transformação do mundo aparecem-nos claramente como uma dimensão constitutiva da pregação do Evangelho, que o mesmo é dizer da missão da Igreja, em prol da rendenção e da libertação do gênero humano de todas as situações opressivas” (JM, resultado do Sínodo dos Bispos, 1971, Introdução, 6). A expressão elimina qualquer dúvida: dimensão constitutiva! 

Surpreende, na análise de Paulo VI, sua preocupação pela acolhida imediata e pela assistência direta aos migrantes, sejam tais serviços de caráter material, sejam espiritual. Mas surpreende muito mais sua preocupação complementar em aprofundar as raízes da própria migração. Não basta abrir as portas a quem chega em busca de trabalho, moradia, saúde, educação. É preciso identificar as causas que o levaram a partir da terra natal. Desvendar as assimetrias, as disparidades socioeconômicas e as injustiças que se encontram por trás dos deslocamentos humanos de massa. 

Disso resulta uma Pastoral Migratória em dupla dimensão: de um lado, acolher, proteger, promover e integrar (como lembra o Papa Francisco); de outro lado, combater em nível nacional, regional e internacional as desigualdades sociais que desequilibram os pratos da balança, obrigando milhões a tentar passar de zonas e países periféricos para zonas e países centrais. Ao direito de ir e vir deve corresponder o direito de viver na própria pátria de forma justa e digna. A ação evangelizadora também se revela dupla, levando em conta, simultaneamente, os lugares de origem e destino (além do trânsito). Se é verdade que “as fronteiras tendem a cair e que vivemos todos numa aldeia global”, como escreve o Pontífice, também é certo que somente mercadorias, tecnologia, informações e capital podem circular livremente. Os migrantes, especialmente os menos qualificados do ponto de vista profissional, cada vez mais encontram restrições, intolerância, discriminação e severas leis de imigração. Mantém-se viva, forte, profética e atual a voz do Papa que será canonizado!

 

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