NACIONAL

Abas primárias

12 DE JANEIRO

8 anos sem Zilda Arns

Por Redação
12 de janeiro de 2018

Fundadora da Pastoral da Criança estava entre as vítimas do terremoto que atingiu o Haiti em 2010

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Às 17h do dia 12 de janeiro de 2010 (20h no Brasil), um terremoto sacudiu e destruiu o Haiti. Zilda Arns Neumann estava com um dos pés no degrau da escada que dava acesso ao segundo andar de um prédio de formação pastoral da Igreja local de Porto Príncipe, capital do País.

Uma série de fatalidades determinara que a médica, pediatra e sanitarista mundialmente conhecida pela fundação da Pastoral da Criança, ainda estivesse no local no momento exato do abalo sísmico de 7 pontos na escala Richter.

Sua palestra, que deveria terminar às 16h30, se estendeu, por conta das dezenas de perguntas dos religiosos presentes, todos muito interessados em iniciar o trabalho de combate à desnutrição infantil, por meio da Pastoral da Criança – motivo que levara Zilda Arns ao País mais pobre das Américas.

Terminados os questionamentos, sempre muito atenciosa, a médica permaneceu no terceiro andar do prédio, atendendo individualmente alguns padres que queriam trocar contatos e experiências, ou simplesmente abraçá-la.

Quando estava deixando o local, acompanhada da Irmã Rosângela Altoé – sua secretária pessoal – e do Padre Willian, coordenador daquele centro de formação, Zilda Arns dirigia-se à escada e o tremor a fez perder o equilíbrio.

Irmã Rosângela havia se virado para pegar o material da palestra. Abaixada à cadeira, ouviu um forte barulho. Acreditou que era uma bomba. Coisa de três segundos depois, sentiu que tudo desabava sobre a sua cabeça. Não sabe como, mas conseguiu ir deslizando junto com a laje do prédio que desmoronava. Pulou por sobre uma parede e se viu na rua, entre uma enorme nuvem de poeira.

Quando começou a entender o que estava acontecendo, Irmã Rosângela chegou a pensar que morreria seca, tão incômoda era a sensação de respirar pó. Foi, então, que passou a ouvir gritos desesperados. Eram crianças e adultos feridos, mães e pais procurando pelos filhos.

Algumas pessoas correram ao seu encontro e quiseram saber sobre a doutora Zilda. Irmã Rosângela não sabia responder. Como estava de costas para a médica na hora do tremor, não viu para qual direção ela tinha ido. Num ato de desespero, voltou aos escombros. Um novo tremor a fez correr para a rua.

O corpo da sanitarista só foi encontrado na manhã seguinte, graças à colaboração direta do Padre Willian que, apesar do choque, indicou o local exato em que estava com Zilda Arns na hora da tragédia. Soldados brasileiros em missão de paz no Haiti retiraram alguns escombros do espaço e descobriram os pés da médica.

No Brasil, ao saber da morte da irmã, o Cardeal Paulo Evaristo Arns, Arcebispo de São Paulo entre 1970 e 1998, confessou que quanto mais refletia sobre o exemplo do trabalho de Zilda Arns em favor das crianças e mães pobres, mais ele se convencia “de que a esperança nasce com a pessoa humana e se realiza plenamente no Deus-criador”. “Sinto que foi e é esse o sentido da vida e ação da doutora Zilda”.

Quem conheceu Zilda Arns Neumann pessoalmente e pôde comparecer aos seu funeral, na capital paranaense, provavelmente saiu com a impressão de que a própria fundadora da Pastoral da Criança era a responsável pela organização da cerimônia.

A família da médica soube encarnar a doçura e a delicadeza de Zilda Arns e traduziu isso em uma acolhida que emocionou amigos e parentes, líderes religiosos e lideranças pastorais, admiradores anônimos e autoridades políticas.

Desde antes do corpo de Zilda Arns chegar em Curitiba (PR), a família se ocupou incansavelmente em garantir um funeral que facilitasse o acesso do povo. O cordão de isolamento, inicialmente pensado pelo cerimonial a uma distância grande do local onde ficaria o caixão com os restos mortais da fundadora da Pastoral da Criança, foi recolocado, a pedido de Carolina Arns (filha de Flávio Arns, sobrinho da médica), a bem menos de um metro.

Zilda Arns foi mãe de seis filhos e avó de dez netos. Mas não qualquer avó. Ela foi “Oma Zilda” (Vó Zilda, em alemão). E também foi a “mãe” de um dos netos, Danilo Arns, 10 anos, filho de Silvia Arns, filha morta em um acidente de carro, em 2003. Desde então, Danilo morava com a “Oma”.

(Por Rafael Alberto – Edição de nº 2782 do O SÃO PAULO, em 19 de janeiro de 2010)

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