SÃO PAULO

Restauro

Capela Santa Luzia ganha nova vida junto à ‘Cidade Matarazzo’

Por Nayá Fernandes
13 de junho de 2017

A capela está sendo restaurada e fará parte de um grande projeto idealizado pelo grupo Allard, no bairro da Bela Vista

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Aberta em 1922, a Capela Santa Luzia está passando por uma significativa transformação, assim como todos os edifícios que estão ao seu redor, na “Cidade Matarazzo”. Localizado entre a rua Itapeva e a alameda Rio Claro, no bairro da Bela Vista, o antigo “Hospital Umberto I” ou “Sociedade de Beneficência em São Paulo – Hospital Nossa Senhora Aparecida e Casas de Saúde Matarazzo”, foi construído em 1904 e, no início do século XX, tornou-se símbolo do crescimento da cidade e da imigração italiana no Brasil, que se deu principalmente em terras paulistas.

Francesco Antonio Maria Matarazzo, que chegou ao Brasil em 1881 junto à sua esposa, Filomena, começou ali um empreendimento que marcou definitivamente a história de São Paulo e que agora está ganhando vida após a aquisição do complexo pelo Grupo Allard, cujo proprietário é Alexandre Allard. Empresário e admirador da cultura brasileira, ele sonha transformar São Paulo numa das cidades mais criativas do mundo com a inauguração da “Cidade Matarazzo”, prevista para o fim de 2018.

O complexo de 27 mil m² deve conservar as características originais das edificações, incluindo novos projetos, como a Torre Rosewood, assinada por Jean Nouvel em parceria com o franco-brasileiro Triptyque, que dividirá espaço com um complexo comercial e um centro de criatividade, onde haverá exposições artísticas e um auditório para eventos.

No caminho entre a capela e o edifício que abriga a atual recepção do empreendimento, é possível ver a estátua de Francisco Matarazzo e os relictos da Mata Atlântica que estão preservados. Palmeiras construídas com borrachas de pneus velhos compõem a cena e recordam a “Invasão Criativa”, que aconteceu entre setembro e outubro de 2014 e ocupou todos os espaços do antigo hospital, abandonado por 20 anos. Cem artistas de 28 países participaram do evento, que recebeu 130 mil visitantes durante os 25 dias de exposição. O objetivo foi chamar a atenção para a vida e a cultura, num lugar que por mais de 90 anos foi referência de saúde para os paulistanos.

 

Capela Santa Luzia

O encontro entre Júlio Roberto Katinsky, arquiteto e pós-doutor pela FAU- USP, Roberto Toffoli Simoens da Silva, também arquiteto, com atuação em projetos de restauro, e a reportagem do O SÃO PAULO aconteceu inicialmente na padaria que fica exatamente em frente à Capela Santa Luzia, na alameda Rio Claro.

Katinsky participou do restauro da Faculdade de Medicina e do Instituto Oscar Freire, da USP, bem como das primeiras diretrizes de discussão e de restauro do Hospital Matarazzo. Entre os edifícios que foram restaurados sob responsabilidade de Toffoli está a Igreja Luterana e o Convento e a Basílica de Nossa Senhora do Carmo, no bairro da Bela Vista. “O restauro acontece num âmbito institucional, ou seja, com dimensões universais. Qualquer coisa pode ser restaurada desde que se reconheçam certos valores culturais. Esses valores vêm da história do bem em questão e a forma com que a religião se desenvolveu num determinado período é constituinte do valor que estamos discutindo ou das qualidades arquitetônicas que ele tem, o que chamamos de estética”, explicou Toffoli.

Katinsky disse também que “a igreja a ser restaurada tem sinais da presença católica; e esses sinais, ao nosso ver, devem ser preservados”. Considerado um dos nomes mais importantes do restauro no Brasil, Katinsky salientou a questão de o Matarazzo ter trazido para o País muitas inovações tecnológicas e científicas. “O Conde Francisco Matarazzo investiu muito dinheiro para construir o Hospital; ele tinha uma visão industrial e sabia que a manutenção das suas indústrias dependia de uma massa de gente que precisava receber algum apoio. A construção da Capela, por sua vez, deve-se ao fato de que a família Matarazzo era católica, bem como 90% da população brasileira. Porém, o Hospital foi incorporado às Indústrias Reunidas Matarazzo e quando elas faliram, o Hospital faliu também”, comentou.

O primeiro pavilhão do Complexo é de 1904 e tem elementos florentinos (escola de pintores italianos influenciados pelo estilo naturalista desenvolvido na cidade de Florença). Outros pavilhões indicam elementos neoclássicos franceses, que é a grande escola de arquitetura a partir dos séculos XVII e XVIII.

Toffoli disse ainda que há diferença entre preservação e restauro. “A preservação tem um sentido mais amplo e o restauro é a intervenção propriamente dita. Sobre o Matarazzo, descobrimos que é o primeiro hospital secular de São Paulo, mas sempre que restauramos um edifício tombado, precisamos dar uma atualização de uso e, por isso, a restauração da capela é essencial. O mentor do projeto, Alexandre Allard, quer ressacralizá-la, para que continuem acontecendo nela as funções religiosas como missas, casamentos e batizados”, continuou ele.Procissão de Nossa Senhora de Lourdes em frente à Capela Santa Luzia, em 1958

“Estamos num momento muito bom para conversar sobre a relação entre a Arquidiocese e o empreendimento feito aqui. No que se refere ao tombamento histórico dos edifícios, que aconteceu em 1986, a Capela tem nível de restrição mais alto do que as demais construções do complexo e, consequentemente, tem que ser restaurada a partir das suas características primeiras. Temos a maior empatia de que ela se torne Capela novamente, pois isso garantirá sua conservação”, afirmou Toffoli.

A Capela será inteiramente restaurada, inclusive objetos como bancos e imagens. O altar de mármore, que provavelmente não foi feito no Brasil, está protegido, e os detalhes da pintura serão igualmente recuperados. Assinada pelo arquiteto Giovanni Batista Bianchi (1885– 1942), que chegou a São Paulo em 1911, a Capela contém fachada neoclássica em amarelo Sienna, que imita o mármore, seguindo a técnica milenar Scagliola, muito usada na Itália.

 

Suspensa

No momento da visita da reportagem à “Cidade Matarazzo”, as obras na Capela estavam a pleno vapor, e Katinsky explicou que o projeto de engenharia feito para que a estrutura da Capela não seja ameaçada é pioneiro no País. Isso porque estão previstos oito subsolos na região abaixo da Capela, que serão utilizados para estacionamento.

“À medida que se fosse escavando, poderia haver modificações na estrutura. Acredito ser a primeira vez que esse trabalho de engenharia esteja sendo realizado no Brasil, ao menos com essa intensidade. O engenheiro é um dos melhores de São Paulo, o professor Mario Franco. É um homem cultíssimo, além da sua condição de engenheiro. Estão dando à Capela grande importância. Aliás, todos esses edifícios históricos estão sendo tratados como nunca foram. As vigas estrategicamente colocadas permitirão que a Capela fique praticamente suspensa quando as escavações começarem”, salientou Katinsky.

Alexandre Samara, engenheiro que acompanha as obras na Capela, comentou sobre o monitoramento das fissuras, feito diariamente para que nada comprometa a estrutura do edifício.

 

“In Extremes”

A história do serviço religioso realizado no então “Hospital Nossa Senhora Aparecida e Casas de Saúde Matarazzo” é contada por diferentes documentos que estão espalhados nas paróquias próximas e no Arquivo Metropolitano de São Paulo. “A maior parte dos registros que temos aqui são ‘In Extremes’, ou seja, em situações extremas, quando a criança ou adulto batizado estão correndo algum risco de vida”, explicou Jair Mongelli, responsável técnico pelo Arquivo, que contém os documentos referentes à vida e organização pastoral da Arquidiocese de São Paulo.

Além dos registros de Batismo e Matrimônio que estão no Arquivo e constam desde 1926, parte dos livros de tombo, com registros que datam de 1960 a 1972, estão nas igrejas São Luiz Gonzaga e Imaculada Conceição, paróquias que ficam territorialmente próximas à Capela Santa Luzia – pois quando houve a desativação do Hospital, em 1993, os livros foram transportados para as igrejas do entorno. Algumas cartas e registros estão também no Arquivo da Província dos Padres Camilianos no Brasil, localizado na Vila Pompeia.

Quando chegaram ao Brasil, em 1922, os Padres Camilianos, cuja missão é atuar junto aos doentes, perceberam que o então Hospital Umberto I poderia ser um local oportuno para a atuação da Congregação. Assim, os Camilianos dirigiram-se aos Capuchinhos, que eram, até então, os responsáveis pela Capelania, pedindo para assumir as funções religiosas no local.

À época, trabalhava também no Hospital, o Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, congregação que chegou ao Brasil em 1900. As religiosas começaram a trabalhar no Hospital em 1907 e foi ali que encontraram os Padres Camilianos, aos quais cabia a organização e orientação dos serviços religiosos, desde 1922.

Naquele ano, segundo relatos dos Padres Camilianos, descritos no livro “Reminiscências Históricas da Fundação Camiliana no Brasil”, o Hospital contava com cem leitos e estava na iminência da construção de novos pavilhões, bem como de uma igreja. No Arquivo da Província Camiliana há várias correspondências entre os novos capelães que foram ao Hospital e os responsáveis legais, inclusive com as assinaturas de Mariangela Matarazzo e José Matarazzo, membros da famílias e presidentes do Hospital. Há também registros da quantidade de batizados, casamentos, confissões e missas realizadas anualmente nas dependências do Hospital. Para se ter uma ideia, no ano de 1952 aconteceram 8.525 confissões, 37.370 comunhões, 343 administrações dos santos óleos (Unção dos Enfermos), 235 batismos, 51 casamentos e 460 missas.

Outros documentos interessantes são as trocas de correspondências em que os capelães pediam aumento dos honorários recebidos pelo Hospital que, segundo eles, estavam abaixo do valor necessário para que pudessem se manter, uma vez que a dedicação ao serviço no Hospital era contínua, “dia e noite”.

 

Viver a experiênciaFundação original da Capela, aberta em 1922, passará por processo de restauro

“Eu acho que cada ser humano tem uma alma e cada lugar carrega em si uma história. Aqui tem uma história muito especial e positiva. As pessoas que estão na origem do Hospital Matarazzo estavam vendo o Brasil positivamente. Tivemos também a comunidade italiana, que viveu uma experiência religiosa católica a partir das referências culturais que tinha, que é diferente daquela de Portugal, por exemplo”, disse em entrevista ao O SÃO PAULO, Alexandre Allard.

Foi dele igualmente a decisão de que a Capela precisaria voltar a ser católica, que nela aconteçam as atividades que existem em qualquer paróquia. “Vamos restaurar a Capela, construir uma casa paroquial e salas para Catequese. Vou fazer uma doação para a Igreja, porque gostaria que aqui houvesse uma comunidade. Somos humanos, temos uma vida e a vida é essa mistura de encontros. Aqui a vida vai ser valorizada”.

Ao ser perguntado sobre a valorização da cultura brasileira, Allard explicou que o projeto não se trata simplesmente de uma construção, mas de um espaço em que os visitantes poderão fazer uma viagem pela cultura brasileira, da qual a religião faz parte. “Esta é, para mim, a visão de futuro para projetos urbanos, que não podem existir sem integrar a realidade da vida de cada lugar. No futuro, não haverá lugar sem conteúdo cultural. Em dez anos, qualquer pessoa poderá comprar tudo utilizando um simples telefone. As pessoas sairão de casa para viver uma experiência, não para comprar. A cultura é uma experiência. Gostaria que a religião católica fosse viva. Como a religião pode viver? É importante que haja uma paróquia, um pároco, pois, uma capela não vive sem organização. E na Capela, teremos cem, duzentas, quinhentas ou até mil pessoas por dia, que virão com um objetivo e se misturarão às outras pessoas que visitam o lugar. Essa troca fará da ‘Cidade Matarazzo’ um lugar verdadeiro, fiel às suas raízes”.

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