SÃO PAULO

Cidade

Com os pés na rua

Por Nayá Fernandes
04 de julho de 2017

Conhecer o bairro e andar a pé é essencial para o desenvolvimento das crianças e, embora São Paulo possa parecer um lugar inapropriado para pedestres, é preciso incentivar que elas tenham contato com a cidade onde vivem

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Andar a pé. Uma prática tão simples, necessária e cotidiana, pode se tornar complicada numa cidade como São Paulo. No caso das crianças, que estão em processo de aprendizado e apropriação do lugar onde vivem, pequenos trajetos acabam por se tornar perigosos e até mesmo inapropriados. Porém, mesmo diante de inúmeras razões que desmotivam uma caminhada em família pelo bairro, existem muitas outras para fazê-la, com segurança e orientação, é claro.

Jullia Pinheiro de Almeida Silva tem 12 anos, nasceu e mora no bairro da Liberdade, no centro da capital paulista. Por estudar um pouco mais longe de casa, precisa ir de carro, mas quando era menor ia a pé com sua mãe para a escola e, por isso, conhece bem o lugar onde mora. “Gosto da Liberdade por ser perto de todos os lugares e ter muitas opções boas, como mercados, lojas, hospitais. Mas, não nos sentimos seguros aqui, e não gosto disso”, disse Jullia, em entrevista ao O SÃO PAULO. A violência, percebida por Jullia, é, sem dúvida, um dos fatores principais quando o assunto é a interação com a cidade. O tema tem sido tratado de diferentes formas em reportagens, seminários, congressos e mesmos por algumas instituições de ensino. Irene Quintáns, arquiteta urbanista, fundadora e diretora da Rede latino-americana de experiências e projetos sobre cidade, arte, arquitetura, mobilidade urbana e espaço público nos quais participam crianças, e vice-presidente da Associação Brasileira pelo Direito de Brincar e à Cultura, desenvolve projetos de mobilidade urbana em São Paulo, sobretudo voltados aos pequenos.

No site red O CARA há relatos de experiências positivas em que a comunidade se organizou para que as crianças e adolescentes pudessem ter uma relação mais adequada com o lugar onde vivem. O “Luz nas vielas”, por exemplo, é um projeto de arte desenvolvido desde 2012 na Vila Brasilândia, zona Noroeste de São Paulo, pelo coletivo espanhol “Mistura Boa”. O objetivo do projeto é tornar o lugar mais agradável por meio de diferentes tipos de intervenção artística, com o apoio e participação da comunidade.

“No desenvolvimento humano, as coisas mais sutis é que farão a diferença e não as coisas mais grosseiras. Isso não significa desvalorizar as coisas mais impactantes que mexem com a criança em um outro nível, mas afinar os sentidos pode trazer novas capacidades. Perceber o mais suave, como por exemplo olhar para uma folha e perceber a riqueza de detalhes em uma forma tão pequena. O singelo nos conecta com a realidade de uma outra forma”, escreveu Irene em um artigo publicado no site Mobilize.

 

LIBERDADE!

Dílvia Ludvichak nasceu no interior de Santa Catarina e há muito tempo elegeu São Paulo como a cidade onde pretende viver até quando seja possível. “Uma cidade tão grande como esta, inevitavelmente, contrasta com os costumes e hábitos de quem nasceu e cresceu no interior, mas, na mesma proporção, fascina”, afirmou ela ao ser perguntada sobre a relação que tem, junto ao esposo e o filho, Nickolas Ludvichak de Souza, que tem 10 anos de idade, com a metrópole. Quando o Nickolas nasceu, Dílvia sabia que ele cresceria fazendo experiências totalmente distintas das suas, mas disse que nunca viu isso como um problema, pois aprendeu a amar São Paulo e aqui criou e continua a criar vínculos fortes e profundos.

A família mora no bairro da Saúde há quase 15 anos. “Embora eu goste muito daqui, admito que ainda conheço pouco. Sempre me surpreendo com o formato de algumas casas

– várias desocupadas, com placas de venda ou aluguel –, alguns muros baixos, as pessoas, muitas em idade avançada, mercearias, açougues e pequenos comércios, que subsistem ao tempo. Eu gosto do que vejo por aqui, e faço questão de comentar com o Nickolas sobre essas peculiaridades. Essas coisas me permitem revisitar minha pequena cidade, da qual, de coração, nunca saí”, comentou Dílvia, que, além de mãe e esposa, é autora e jornalista especializada em Jornalismo Cultural, Religião e Cultura.

“Eu amo a cidade onde moro, pois nela eu consigo fazer coisas importantes e, ao mesmo tempo, me divertir, conhecer lugares diferentes, ou seja, ela possui muitas opções para viver”, disse Jullia que, aos 12 anos, gosta de caminhar pela avenida Liberdade e sonha em “conhecer o mundo inteiro, novas culturas, costumes”.

Mas a rua, às vezes, pode representar um perigo constante. No Jardim Gaivotas, comunidade no extremo sul de São Paulo, moram Fernanda Costa da Silva, 29, e a pequena Shophia Lavinya Costa Rodrigues, que tem apenas 4 anos. Fernanda sai para trabalhar ainda de madrugada, às 4h40, e retorna por volta das 15h. Enquanto a mãe está fora, a pequena fica com a avó. “A realidade do nosso bairro é extremamente violenta, e por isso não gosto que a Shophia brinque na rua com as outras crianças. Quero contar uma situação que vivemos há cerca de um mês. Minha mãe foi abrir o portão para um tio que estava de saída e eu vi um caminhão em alta velocidade. Gritei para que a Shophia viesse para dentro e que minha mãe fechasse o portão imediatamente. Como na minha região não tem comércio, percebi algo suspeito e estava certa. Era mercadoria roubada e um grupo de homens fazia o motorista de refém. Comecei a ligar para a Polícia para denunciar a situação, mas aqui é difícil dar a localização exata e, quando a polícia chegou, cerca de 20 minutos depois, eles já tinham descarregado tudo o saído com o caminhão”, contou Fernanda, que tem se esforçado constantemente para dar à filha a oportunidade de interação com espaços da cidade diferentes do lugar onde ela mora.

Para driblar a violência e ao mesmo tempo proporcionar à filha o contato com realidades diferentes, Fernanda leva Shophia a ambientes como parques ou unidades do Sesc.

“Saímos sempre de trem, ônibus e metrô e, na maioria das vezes, atravessamos a cidade. Quero que minha filha frequente teatros, cinemas e participe de eventos culturais, para que ela tenha um leque cultural maior do que o que a periferia nos proporciona, pois aqui no Grajaú as opções para crianças são pouquíssimas”, lamentou.

Driblando as dificuldades São as ruas que ocupam a maior parte do espaço público das cidades. Elas servem para que as pessoas, a pé, de bicicleta, de carro ou outros veículos se locomovam, mas não só isso. A rua é também espaço para lazer e é na rua que o ser humano tem contato com o mundo fora do seu ambiente familiar, ou seja, é na rua que o confronto real com pessoas diferentes acontece.

“Existem diferentes passeios gratuitos ou com custo baixo em São Paulo, e dá para se chegar a muitos lugares usando o transporte público. Mas, tudo depende do interesse, e, no caso, os adultos ocupam um papel fundamental.

As crianças precisam ser instigadas a experimentar coisas novas. Em casa, cultivamos o hábito de visitar museus, exposições e parques, e isso desde que o Nickolas era muito pequeno”, relatou Dílvia, que já escreveu, inclusive, livros de literatura infantil, como o “Chef Brasil, saboreando histórias”.

A mãe reconhece que, embora o acesso não seja tão complicado, a rotina pesada de trabalho e a diminuição ou o distanciamento dos núcleos familiares são fatores que determinaram um padrão diferente, e os pais ocupam a maior parte do tempo buscando proporcionar, sobretudo, segurança para os filhos. “Isso implica, de certa forma, no confinamento à casa, à escola, a ambientes que nos passem a sensação de segurança. Por essa razão, temos de buscar formas de colorir um pouco esse cenário. De novo, criatividade, boa vontade e curiosidade ajudam muito”, reconhece Dílvia. “Nossos filhos crescerão e farão as suas próprias escolhas. Sentir que pertencem a uma história é algo com o qual nós, pais, devemos nos preocupar, e contribuir, na medida do possível”, continuou ela. Até mesmo Jullia, que disse preferir andar de carro, mesmo para percorrer pequenas distâncias, reconhece que as crianças precisam aproveitar a infância para passear, brincar e se divertir. “As crianças que não saem de casa não aproveitam esse momento, normalmente ficam no celular. Os pais não deixam sair também pelo fato da segurança”. Ela contou à reportagem que aprendeu com a mãe a andar na rua, ter cuidado ao atravessar e sabe que, com esse aprendizado, não terá dificuldades quando começar a “desbravar” o mundo sozinha.

Por outro lado, Jullia já viveu experiências tristes, vendo pessoas procurando comida nas latas de lixo, por exemplo. Caminhar faz bem! Acorda, entra no carro, vai à escola, entra na sala de aula, sai 15 minutos para o intervalo.

Sai da escola, entra no carro, chega no apartamento onde mora. Fim de semana, entra no carro, vai ao shopping, sai do shopping, vai à casa do amigo de carro, outro apartamento. A descrição, embora um pouco angustiante, representa o dia a dia de milhares de crianças nos grandes centros urbanos. A chamada “vida em caixa” é uma realidade constante, pois acaba sendo a opção mais segura num mundo onde andar na rua pode significar risco à vida. E, por mais confortável que essa situação possa parecer, ela não pode ser vista como a melhor para o crescimento e desenvolvimento de uma criança.

Pryscila Simieri, formada em Psicologia e atuante na área de Educação, principalmente no acompanhamento de crianças que tem algum tipo de deficiência, afirmou ao O SÃO PAULO ser fundamental que a criança conheça seu bairro e as proximidades de onde mora. “Conhecer o lugar onde mora é importante também por uma questão de segurança. Caso aconteça algum problema, como um desencontro com os familiares, a criança ou o adolescente saberá voltar para sua casa ou indicar o lugar onde mora sem enfrentar uma situação de desespero ou desamparo que a deixe sem reação.

Além disso, é uma maneira de trabalhar a autonomia, pois conforme a criança reconhece as ruas, se torna capaz de ir e vir sozinha da padaria que fica no quarteirão, da casa de um amiguinho vizinho, ou até mesmo da escola, dependendo da distância, da localização e, claro, da idade.” Ela falou, ainda, sobre os benefícios que a caminhada traz para o corpo. “A criança trabalha e desenvolve sua individualidade para explorar o que lhe chama mais atenção. Caminhando, ela se desenvolve emocionalmente e fisicamente, e em tempos de obesidade e sedentarismo, qualquer caminhada é importante para o corpo”, afirmou Pryscila. Acerca do papel da escola, Pryscila enfatizou que a instituição de ensino precisa estar sempre em diálogo com a família e as duas, alinhadas, auxiliarão no desenvolvimento das crianças da melhor forma possível. “É importante fazer um trabalho de conscientização da importância que o caminhar traz para o desenvolvimento infantil, por meio de projetos interdisciplinares, passeios escolares e atividades fora da escola”, continuou. Foi Dílvia que recordou o trecho de um clássico da literatura infantil que pode auxiliar para a compreensão do quanto andar a pé é importante na vida de uma pessoa. No texto de Lewis Carrol, em “Alice no País das Maravilhas”, há um diálogo que serve como síntese e, ao mesmo tempo, provocação positiva diante do tema proposto:

– Por favor, poderia me dizer que caminho devo tomar aqui? – Perguntou Alice.

– Depende muito do lugar aonde você quer chegar – disse o Gato.”

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