Anorexia

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12 de janeiro de 2018

O barulho das xícaras e o alterar das vozes de pessoas de todas as idades compuseram o contexto da entrevista concedida por Amanda Sarah Ferreira de Lima Costa, 24, sobre a doença que teve aos 16 anos: anorexia nervosa. Durante mais de uma hora, numa cafeteria de uma grande livraria paulistana, a jovem contou sua experiência de superação da doença e como o trabalho como nutricionista foi essencial neste processo.

Amanda nasceu em Cotia (SP) e tem quatro irmãs. Aos 6 anos, perdeu o pai de maneira repentina e, desde então, passou a crescer nela o sentimento de reponsabilidade na família. “Quando meu pai faleceu, minha mãe tinha 24 anos e passamos por uma etapa muito difícil”, disse. 

Devido a rotinas diferentes, a família de Amanda não tinha o hábito de sentar-se à mesa para comer. “Eu acredito que o sentar-se à mesa é importante. Com a correria do dia a dia, comer vai deixando de ser um momento prazeroso”, afirmou a Nutricionista, que além dos atendimentos regulares, acompanha atletas num estúdio na região do Morumbi, na zona Sul da cidade. 

 

Uma palavra

Ao falar sobre os motivos que desencadearam a doença, Amanda lembrou-se de um episódio que aconteceu quando tinha 10 anos de idade, na sala de espera para uma consulta com o pediatra. “Eu estava usando uma saia e um top e dava para ver a barriga. Tinha uma amiga da minha mãe esperando no mesmo consultório e comentou: ‘Nossa, como ela está gordinha. Olha essa barriguinha’. Aquilo me incomodou profundamente, mas passou, pois eu não tinha nenhum problema com alimentação.”
 

Na adolescência, Amanda jogava handebol e percebia-se maior que as suas amigas. “Eu tinha as pernas grossas e uma estrutura corporal mais volumosa, mas não era gorda. Minhas amigas falavam sobre meu corpo e aquilo, mesmo não sendo, parecia um insulto”, comentou a jovem. 

Mas o não querer mais alimentar-se veio depois que Amanda começou a fazer jejum, uma das orientações da igreja evangélica que passou a participar aos 14 anos. “Eu gostava de fazer jejum e pensava no benefício de, além de ajudar as pessoas com a oração, emagrecer rapidamente. Por isso, procurava realizar atividades para estender meu horário de jejum. Aos 15 anos, eu cheguei a pesar 42 quilos”, contou. 

“Foi quando comecei a emagrecer cada vez mais e me sentir muito bem com isso. Achava bonito meus ossos aparecendo, e passava todos os dias na farmácia para me pesar. Ingeria cada vez menos comida e até cheguei a tentar vômito, mas não consegui. Além disso, fazia todas as atividades físicas que conseguia.” 

 

29 quilos

“No fim de 2008, eu fui passar as férias em Natal (RN) com a família do meu pai e muitas pessoas não me conheciam. Então, eu decidi aproveitar a distância da minha mãe e das minhas irmãs para perder ainda mais peso. Na ocasião, no calor do Nordeste, eu sentia frio e cheguei até a começar a desenvolver uma espécie de penugem, quando o corpo não tem mais gordura suficiente para manter a temperatura e desenvolve mecanismos de proteção”, recordou Amanda, que já chegou a acompanhar outras pessoas com anorexia, no seu trabalho como nutricionista. 

Ao chegar a Natal, os familiares perceberam algumas atitudes diferentes no comportamento de Amanda e levaram-na ao médico e à nutricionista, mas ela ignorou todas as orientações que recebeu. “A nutricionista verificou que eu estava com 8% de gordura corporal e me passou uma dieta para engordar, mas eu não segui nada do que ela havia prescrito. Eu pesquisava muito e sabia exatamente qual eram as calorias de cada alimento. Tudo estava saindo do controle, e em alguns dias, por exemplo, eu comia somente uma maçã. Estava com 36kg”, disse. 

“Eu já sabia que estava com a anorexia, mas tinha vergonha de falar. Quando cheguei a São Paulo e minha mãe me viu no aeroporto, ficou desesperada. Foi aí que começamos a procurar os hospitais. A cada consulta, o diagnóstico era: ‘Mãe, sua filha está com anorexia nervosa e vai chegar a óbito. Eu não me sentia acolhida’. Comecei a pesar-me semanalmente para verificar aumento de peso e isso era uma tortura. Chegava a colocar pedras na roupa para esconder que estava perdendo peso. Jogava comida pela janela, para fingir que eu estava comendo. Mas, um dia, minha mãe viu que os cachorrinhos estavam comendo aquela comida. Então, ela começou a me obrigar a comer na frente dela. Era horrível a sensação de comer um pão inteiro, por exemplo. Foi quando senti uma forte dor nas costas, e no hospital descobriram que meu rim estava funcionando com apenas 20% da capacidade”, recordou, emocionada, Amanda. 

À reportagem, ela disse que tirava muitas fotos e achava-se uma modelo. “Fotos que olho hoje e sinto medo. Além disso, eu estava tornando-me uma pessoa antissocial. Não tinha vergonha do meu corpo, mas não queria ter convívio com as pessoas para que eu não tivesse contato com a comida.” 

Com 29 quilos, aos 16 anos, Amanda foi internada em diferentes alas do Hospital das Clínicas, em São Paulo, como a psiquiatria, a hematologia e a nefrologia. “Todo o meu organismo estava comprometido e, por isso, meu corpo começou a usar a energia dos órgãos internos. Peguei também uma esofagite e, por isso, não podia comer. Isso foi às vésperas do vestibular e eu queria sair do hospital para estudar. Depois de tratar a esofagite, um dos médicos me deu muito soro e eu saí do hospital com 3kg a mais”, recordou a Nutricionista. 

 

Resgate

Amanda conta que com o tempo passou a anotar tudo que vivia em um diário e que, ao sair do hospital, naquele dia, escreveu que queria mudar de vida: “Desde então, eu passei a me alimentar. Eu sentava na mesa para comer e ficava mais de 40 minutos para dar a primeira garfada. E chorava desesperadamente, porque queria comer e, ao mesmo tempo, porque não queria de jeito nenhum. Comecei com uma xícara de café com leite e meio pão. Depois, frutas, e depois alimentos que para mim eram proibidos como salgadinhos, hambúrguer.” 

Ao falar do seu processo de recuperação, Amanda usou a palavra resgate. “Eu não sei como isso aconteceu, mas foi uma força de dentro de mim mesma. Com a anorexia, eu me sentia presa dentro de mim e percebi que começava a libertar-me. Até que um dia eu sentei à mesa e comi com prazer.” 

 

Nutrição

“Chegou o dia do vestibular e eu queria cursar Medicina, mas percebi que não conseguiria. Então, optei por Nutrição. O curso foi essencial para mim e eu pensei também no que poderia fazer para que as pessoas tivessem uma boa relação com a comida. Hoje, percebo que vivemos num mundo em que a maioria das pessoas tem algum tipo de transtorno alimentar”, avaliou Amanda. 

A jovem Nutricionista, que mora com duas irmãs e gosta de cozinhar, salientou que o fato de as pessoas taxarem os alimentos como bons ou ruins causa muitos transtornos, pois acabam por não conseguirem se alimentar sem culpa. “As pessoas comem e dizem: ‘Como porque mereço...’. como se pudessem comer só em momentos específicos. Além disso, confundem sensação e sentimento. A fome é uma sensação diária e o fato de as pessoas terem alegria ou tristeza, que são sentimentos, não deve influenciar diretamente a escolha por comer ou não. Devemos enfatizar também que a padronização de beleza e a hipervalorizarão do corpo impactam diretamente na alimentação. As pessoas querem ter sempre o corpo de alguém, de um artista famoso ou de um modelo midiático. Mas cada pessoa tem uma composição e o importante é você ter um corpo saudável dentro da sua estrutura corporal”, disse Amanda, enquanto olhava o cardápio da cafeteria. 

 

A influência da mídia

No artigo “O impacto da mídia no desenvolvimento da obesidade infantil”, publicado pela Faculdade Atenas por um grupo de professores e estudantes dos cursos de Nutrição, há uma análise sobre o papel da mídia no desencadeamento da doença. De acordo com o texto, “o padrão de beleza imposto pela sociedade atual corresponde a um corpo com formas físicas bem definidas. Os padrões corporais e hábitos alimentares são ditados pela mídia, que influencia os valores e escolhas de crianças, adolescentes e adultos jovens”. 

A reflexão salienta o fato de que “todo adolescente tem em sua mente um corpo ideal, quanto mais este corpo se distanciar do real, maior será a possibilidade de negação, comprometendo sua autoestima. As adolescentes, quando estão abaixo do peso ideal ou até mesmo no peso adequado, costumam se sentir desproporcionais ou gordas, o que se denomina de distorção da imagem corporal. Dentre os fatores de risco para o desenvolvimento da anorexia nervosa, destacam-se a mídia e os ambientes social e familiar, sendo associados, principalmente, ao culto à magreza imposta pela mídia e seguida por grande parte da sociedade”. 

 

Anorexia nervosa, o que é?

Anorexia nervosa é um distúrbio alimentar e psicológico, com perda de peso excessiva, na qual a pessoa procura alcançar a extrema magreza, chegando a utilizar estratégias para perder peso. A doença afeta, principalmente, os adolescentes e, sobretudo, as mulheres do Hemisfério Ocidental. 

Existem muitas causas possíveis para uma diminuição do apetite, algumas das quais podem ser inofensivas, enquanto outras apontam para uma condição clínica grave ou constituem um risco significativo. 

A anorexia é caracterizada pela recusa em manter um peso corporal e um medo obsessivo de ganhar peso devido a uma distorcida imagem de si próprio, que pode ser mantido por conclusões erradas, que alteram a forma como o indivíduo afetado avalia o seu corpo. 

Sendo uma doença complexa, a anorexia nervosa envolve problemas sociais, fisiológicos e psicológicos. Uma pessoa que tenha anorexia nervosa pode ser chamada de anoréxica. Uma pessoa que seja anoréxica pode ser também chamada de bulímica. 

Para os jovens adolescentes de ambos os sexos, a doença pode estar ligada à autoimagem e à dificuldade em ser aceito pelo grupo, com mais incidência se houver um quadro neurótico (do tipo obsessivo-compulsivo) ou uma história de abuso ou de bullying. É uma doença mental grave, com taxas de morbidade e de mortalidade elevadas.
 

 

Características das pessoas com Anorexia

  • Recusa em manter o peso corporal normal para a sua idade e altura;  Medo de engordar;   Nas mulheres, há a interrupção da menstruação e, nos homens, baixa  significativa dos níveis hormonais;  Negação sobre os perigos do baixo peso;  Irritabilidade e depressão.
  •   Cerca de 95% das pessoas com anorexia são adolescentes e mulheres;   Entre 0,5% a 1% das mulheres americanas sofrem de anorexia nervosa;  20% dos indivíduos que lutam contra a anorexia nervosa chegam a óbito.

Fonte: www.disturbiosalimentares.com

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