E quando as crianças não são bem-vindas?

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14 de fevereiro de 2018

Sair com as crianças para comer no restaurante ou para alguns dias de descanso num hotel ou pousada nem sempre é tarefa fácil. Os pais precisam pensar cuidadosamente antes de optar por algum lugar e, às vezes, cometem escolhas que acabam por constrangê-los. Que família nunca se sentiu observada em algum ambiente que parece ter sido pensado exclusivamente para adultos, ao tentar manobrar um carrinho de bebê ou tirar a criança do canguru? Ou ainda quando o bebê começa a chorar durante um voo de avião? 

A questão, porém, é bem mais complexa. Tem crescido por aqui um movimento que teve origem nos Estados Unidos da América e no Canadá, nos anos 1980: o Childfree , ou seja, livre de crianças. No início, era formado por pessoas que se sentiam discriminadas por não terem filhos, mas, com o tempo, foi tornando-se um movimento daqueles que não querem ter filhos nem qualquer tipo de contato com crianças.

No Brasil, uma busca mais detalhada na internet por hotéis e pousadas perto de São Paulo logo revelará para o buscador que há lugares onde as crianças não são bem-vindas. Com a informação de proporcionar ambientes tranquilos, em que os adultos podem relaxar sem serem incomodados, estabelecimentos como hotéis e restaurantes têm se apresentado como Childfree 

Na descrição, alguns dizem não ter estruturas adaptadas para os pequenos e outros informam claramente que o ambiente é pensado para garantir o romantismo, por exemplo, ou simplesmente a tranquilidade dos adultos, e que pais de crianças pequenas têm, inclusive, o direito de frequentar ambientes sem a presença delas. 

“O movimento Chilfree é bastante polêmico. Por um lado, quem veta a entrada ou participação de crianças em determinados espaços ou estabelecimentos está promovendo discriminação de um segmento da sociedade. Fora os casos nos quais um espetáculo, show, exibição, fórum sejam vetados a determinadas faixas etárias, por questões de ‘censura’ ou inadequação, é questionável esse movimento. Crianças são atores sociais e, como tais, têm voz própria e direitos. Caberia a cada responsável - família, educadores - tomar a decisão de fazer ou não seu filho/aluno participar de um determinado espaço, atividade ou evento”, afirmou Adriana Friedmann, docente e autora, doutora em Antropologia pela PUC-SP e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento (Nepsid), criado por ela, bem como do Mapa da Infância Brasileira. 

Quando a questão é colocada à mesa, contudo, os estabelecimentos se utilizam do argumento de serem privados e, por este motivo, estarem autorizados, sem nenhum constrangimento, selecionar seus clientes. “É questionável se alguns estabelecimentos particulares estariam no seu direito de restringir o perfil do seu público de interesse. A questão espelha valores de determinadas sociedades ou grupos sociais: valores de inclusão, aceitação de diversidade, solidariedade, entre outros. Há necessidade de muito debate a este respeito”, ponderou Adriana.

Em entrevista ao O SÃO PAULO , Desirée Ruas, jornalista e membro do Movimento pela Infância e da Rede Brasileira Infância e Consumo (Rebrinc), recorda que os locais impróprios e inseguros podem fazer esta restrição com o intuito real de proteger as crianças. “Um cinema ou teatro que apresente conteúdos voltados para o público adulto e, por isso, restringe o acesso de crianças, está exercendo o seu dever de proteger a infância. Mas os demais locais, sob o pretexto da proteção, colocam regras que, na verdade, são discriminatórias. Já imaginou se estes locais se recusarem a receber idosos, mulheres e negros? Isso seria aceito com naturalidade? E por que podem recusar o acesso de crianças?”.

 

MAIS AMOR, POR FAVOR

Numa pizzaria na Zona Norte de São Paulo, além do tradicional cadeirão, os pequenos ganham um pouco de massa e uma touca grande de papel para brincarem de chefes de cozinha e fazerem suas próprias pizzas em miniatura. Mas o tratamento não é norma e, sim, exceção. Em muitos restaurantes, os banheiros não têm trocadores e os cadeirões estão quebrados ou inutilizáveis. 

Das crianças, por sua vez, são cobradas atitudes que não correspondem à sua faixa etária. Enquanto risadas e conversas em alto tom são toleradas por parte dos adultos, os pequenos são considerados mal-educados se algum choro ou grito for ouvido. Não se trata, é claro, de uma permissividade em relação a atitudes equivocadas. Os pais têm sim o dever de corrigir exageros dos filhos, mas não seria justo pedir que as crianças se comportem como adultos em miniaturas para não disturbar quem, simplesmente, não as tolera.

Ao ser questionada sobre o fato de a proibição ser um tipo de violência contra as crianças, Adriana respondeu que a “considera mais que uma violência: uma atitude discriminatória. Seria violência, na minha opinião, a forma como é colocada esta restrição”. Desirée, por sua vez, vê o comportamento como discriminatório e ilegal. “É uma violência sim. Um sinal da intolerância que estamos vivendo. A criança que sobe na cadeira e corre por entre as mesas do restaurante faz isso porque é natural para a faixa etária dela. Certamente, os responsáveis estarão por perto para cuidar da criança e evitar incômodos aos demais usuários do espaço. Locais com crianças podem ser mais barulhentos também. E isso é perfeitamente natural, e os adultos, que já foram crianças um dia, devem se lembrar do que é ser criança. Adultos também podem incomodar outras pessoas com um comportamento inconveniente em restaurantes e hotéis. Mas eles continuam sendo aceitos normalmente”, disse.

“Forçar a criança a ser o que ela não é, isso é violência. A infância é uma fase fundamental na vida do ser humano. Por isso, é tão primordial que tanto a família, como as demais pessoas, ajudem a cuidar, a garantir a segurança e permitir que as crianças possam brincar e explorar os espaços. Hoje vemos que muitos museus e espaços de cultura estão se preparando para receber crianças. Elas são cada vez mais bem-vindas nestes espaços. Mas não podemos esperar das crianças o mesmo comportamento dos adultos. Elas vão querer tocar e fazer muitas perguntas, porque esse é o comportamento natural da infância. E é possível que os espaços façam as adequações necessárias. Se um hotel tem varandas inseguras e não tem telas de proteção, por que não as colocar e ter espaços mais seguros para as famílias com suas crianças? Estamos carentes de um olhar sensível para as necessidades da infância”, afirmou Desirée. 

 

ONTEM E HOJE

É contraditório. Se por um lado, a sociedade pede sempre mais inclusão, por outro, parece criar espaços de restrição e discriminação. Adriana explicou que na Antiguidade não se tinha conhecimento sobre os processos e especificidades do desenvolvimento infantil. “Adultos e crianças conviviam igualmente. Porém, muitas crianças que nasciam já fora das expectativas ou padrões sociais - meninas, crianças com determinadas síndromes, etc. - eram mortas, abandonadas ou encaminhadas para orfanatos.” 

Foi com o surgimento da escola e dos estudos sobre o desenvolvimento infantil que o tema das infâncias começou a ganhar destaque na sociedade. “Com a declaração dos direitos universais do ser humano - e das crianças especificamente – também o mercado e a mídia passaram a descobrir nelas potencias clientes e alvos de atenção”, observou a autora de livros como “Protagonismo Infantil” e “Linguagens e Culturas Infantis”.

“Os movimentos pelo brincar, pelo direito a espaços, natureza, serviços de saúde, educação, respeito; os sistemas que condenam a violência contra crianças, o sistema de direitos e os vários mecanismos de delatar o abuso infantil; o mais recente movimento pela participação e protagonismo infantis; e todos os estudos e avanços nas áreas de psicologia, medicina, pedagogias, neurociências, dentre outras áreas,  têm constituído importantíssimas conquistas no que se refere aos direitos e visibilidade das crianças e sua importantíssima presença e aceitação na sociedade”, continou Adriana.

 

O QUE DIZ A LEI?

Mas, se os estabelecimentos são particulares, eles não têm o direito de restringir a entrada de quem quiserem? Desirée explicou à reportagem que, no que se refere aos direitos das crianças e dos adolescentes, há respaldo jurídico suficiente para a proteção da infância. “A grande questão é a distância entre o que está no papel e o que acontece na prática.  A Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU de 1989 proíbe em seu artigo 2º qualquer forma de discriminação contra a criança ou seus responsáveis. O Brasil ratificou, em 1990, a Convenção. A Constituição Federal de 1988 determinou como objetivo fundamental (artigo 3º, IV) promover o bem de todos ‘sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação’, prevendo punição para qualquer ato discriminatório que atente contra direito ou liberdades fundamentais (artigo 5º, XLI), como o direito das crianças e seus responsáveis de irem e permanecerem juntos em espaços sociais de convivência.” 

A Jornalista disse ainda que a criança é prioridade absoluta segundo o artigo 227 da Constituição e o artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente. “O texto diz que é dever de todos colocar as crianças a salvo de toda forma de discriminação. Restaurantes e hotéis não podem fugir dessa obrigação indo no sentido inverso da legislação que protege a infância”, reforçou. Sob esse ponto de vista, pode-se afirmar que tal proibição é ilegal e passível de denúncia por parte dos clientes. 

 

AMIGO DA CRIANÇA

Se por um lado, existem lugares onde a alegria das crianças é vista como incômodo e pessoas que não suportam um choro ou um grito inesperado, há outros em que elas não somente são bem-vindas, mas que criaram também espaços e atividades especialmente para entretê-las. São os chamados hotéis ou restaurantes e eventos Child Friendly, ou amigo da criança. 

“Estamos vivendo tempos muito contraditórios e em tensão permanente: guetos que passam por crenças religiosas, seitas, grupos culturais ou, simplesmente, por visões herméticas no que diz respeito à aceitação das diferenças e da diversidade sociocultural. E também movimentos que incentivam o coletivo, a diversidade, valorizam a multiculturalidade, acolhem, respeitam e se solidarizam com todo tipo de diferenças. Não duvido que o diálogo, a disseminação de conhecimentos e a conscientização crescente sejam fundamentais para uma sociedade mais equilibrada e uma convivência saudável”, salientou Adriana.

Desirée insistiu que são necessárias mais iniciativas que acolham as crianças. “Queremos restaurantes com lápis de cor, papel e jogos de tabuleiro sobre as mesas, de comida saudável e atraente no menu kids, de garçons e atendentes mais simpáticos, de serviços com mais qualidade, de banheiros adaptados para crianças e com trocadores, enfim, de ambientes mais interessantes para a infância e para toda a família”, disse a especialista, mãe de duas meninas, que mora em Belo Horizonte (MG) e percorre o Brasil ajudando as pessoas a refletirem sobre os direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes.

E, para além de toda essa polêmica, é importante pensar que a presença das crianças acrescenta valores à própria experiência da vida adulta. E não é somente pela inocência ou pela capacidade de falar a verdade, mas também pelo jeito de olhar o mundo e viver nele sem preconceitos ou medo de errar, pela capacidade de aprender sempre e de chorar, às vezes, sem pensar no julgamento alheio. 

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