‘O povo de Deus merece poder contar com presbíteros que sejam homens íntegros e idôneos’

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15 de abril de 2018

Em entrevista ao O SÃO PAULO , Dom Jaime Spengler, Arcebispo de Porto Alegre (RS) e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da CNBB, falou sobre a proposta de novas Diretrizes para a Formação de Presbíteros, tema central da 56ª Assembleia Geral da CNBB, que acontece entre os dias 11 e 20, em Aparecida (SP). 

Um dos responsáveis pela elaboração do texto que será trabalhado pelos bispos, Dom Jaime destacou a necessidade de se considerar as rápidas transformações sociais e culturais que influenciam os candidatos ao ministério ordenado. “Os tempos mudam e exigem respostas condizentes às novas situações e desafios”, afirmou o Arcebispo. 

 

O SÃO PAULO – QUAL A NECESSIDADE DE PROPOR NOVAS DIRETRIZES PARA A FORMAÇÃO PRESBITERAL PARA A IGREJA NO BRASIL?

Dom Jaime Spengler – As diretrizes que estão em vigor foram aprovadas em 2009 e levavam em consideração as novas situações da realidade formativa e a riqueza missionária do documento da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, celebrada em Aparecida, em 2007. Agora, após a publicação, pela Santa Sé, da nova Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, intitulada “O dom da vocação presbiteral”, em 2016, e tendo presente o magistério do Papa Francisco, a CNBB sente a necessidade de elaborar novas diretrizes para a formação dos presbíteros da Igreja do Brasil. Há de se considerar, também, as rápidas transformações sociais e culturais que influenciam os candidatos ao ministério ordenado. Os tempos mudam e exigem respostas condizentes às novas situações e desafios.

 

QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS?

Vivemos aquilo que se cunhou denominar mudança de época. Estamos num tempo de transformações rápidas e profundas, que afetam a realidade como um todo. São transformações que atingem todos os setores da vida humana e os próprios critérios de compreensão, os valores mais profundos, a partir dos quais se afirmam identidades e se estabelecem relações e ações. Tal situação representa um desafio para a formação dos candidatos ao ministério ordenado.

O Brasil é marcado por enormes diferenças. Isso se reflete no tipo de candidato que procura uma oportunidade para realizar um itinerário vocacional. Temos, por um lado, os grandes centros urbanos com características próprias. De outro lado, temos a realidade, digamos, rural, que também apresenta um perfil característico de candidatos. Temos, ainda, candidatos que provêm de etnias indígenas – sobretudo da realidade amazônica. Também temos o jovem sertanejo, do cerrado, os negros. Há realidades que ainda possuem o seminário menor. Outras só acolhem candidatos que já concluíram o ensino médio ou candidatos adultos. Alguns candidatos chegam apresentando uma grave deficiência escolar. Outros apresentam ótima formação intelectual e acadêmica. E o que dizer dos que não foram iniciados na fé cristã? Constata- -se, também, um número crescente de candidatos de idade mais avançada. Em algumas regiões, verifica-se um número expressivo de candidatos que são filhos único. Esses são alguns elementos que desafiam a formação presbiteral.

 

E AS DIRETRIZES VÃO LEVAR EM CONTA ESSAS QUESTÕES?

Um documento que pretenda ser de orientação para toda a Igreja do Brasil há de ter presente a complexa realidade que as diferentes regiões e situações apresentam. Por isso, a formação há de ser sempre orientada por grande sensibilidade por parte dos encarregados da formação dos futuros presbíteros e profundo empenho naquela obra que a tradição ocidental denomina “discernimento”. Além disso, é imprescindível que os candidatos sejam acompanhados por equipes formativas. Mas para que as equipes formativas possam desenvolver sua missão, constata-se a necessidade de preparar um número suficiente de formadores. Onde não é possível haver uma equipe de formadores, urge ter a coragem de constituir seminários provinciais ou regionais, onde os candidatos possam receber acompanhamento personalizado e formação adequada para estarem à altura das exigências e desafios que a atividade evangelizadora na complexa realidade de hoje apresenta à Igreja.

 

QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS MUDANÇAS DA NOVA RATIO FUNDAMENTALIS QUE O SENHOR DESTACA?

Creio que a nova Ratio Fundamentalis é para uma nova geração de presbíteros. No entanto, não se trata tanto de mudanças. Por quê? Trata-se, antes de tudo, de propor ou indicar caminhos para escuta daquilo que o Espírito de Deus inspira à Igreja; ao mesmo tempo, faz-se necessária a devida atenção à rica e bela tradição da Igreja. A escuta atenta do Espírito Santo impulsiona a olhar para a frente – o Espírito Santo de Deus faz novas todas as coisas! – e cultivar a devida atenção ao patrimônio já existente. 

A nova Ratio insiste na integralidade do processo formativo e recomenda a devida atenção às diversas dimensões do ser humano. Para isso, faz-se necessário a construção de um itinerário pedagógico gradual e personalizado. O documento põe um acento particular sobre a dimensão humana. Isso também implica maturidade afetiva. Sem uma sólida base humana, torna-se difícil desenvolver, por exemplo, as dimensões intelectual, espiritual, comunitária e missionária, constitutivas da integralidade do processo formativo.

Outro aspecto importante é o discernimento vocacional. O povo de Deus merece poder contar com presbíteros que sejam homens íntegros e idôneos; homens apaixonados por Jesus Cristo e seu Evangelho. Homens que assumiram o caminho do discípulo e de configuração a Jesus Cristo. Homens capazes de testemunhar com palavras e ações que amam o que são e gostam do que fazem.


QUAL É A PRÓXIMA ETAPA DA ELABORAÇÃO DAS DIRETRIZES?

O Conselho Permanente da CNBB solicitou que a Comissão Especial designada elabore o texto a ser proposto como material de estudo para esta Assembleia Geral. Há de se recordar que as atuais diretrizes em vigor foram aprovadas por unanimidade pelo episcopado brasileiro. Isso diz do ótimo trabalho então realizado. É verdade que após quase dez anos, mudanças aconteceram. A sensibilidade para tais mudanças se fará sentir durante a própria Assembleia nas sugestões, emendas etc, que serão certamente apresentadas pelos senhores bispos. É também verdade que os bispos já tiveram oportunidade para apresentar suas sugestões. Também os formadores dos diversos seminários desse imenso Brasil e os animadores da Pastoral Presbiteral nas dioceses puderam cooperar na construção do texto que está chegando às mãos dos bispos nestes dias de Assembleia.

 

O DOCUMENTO PROPOSTO É EXTENSO. PRETENDE-SE DIMINUÍ-LO?

Esta é uma questão desafiadora! Há um consenso quase geral entre os bispos de que os documentos da Conferência sejam breves. Entretanto, tendo presente a complexidade do tema e as distintas realidades da Igreja no Brasil, pode-se imaginar o quanto seja difícil construir um texto breve. A Comissão se esforçou para construir um texto breve. No entanto, chegamos praticamente às mesmas dimensões do texto das diretrizes em vigor. Oxalá, os bispos reunidos, seguindo o princípio da sinodalidade, consigam expressar o que se faz necessário como Diretrizes para a formação dos presbíteros da Igreja no Brasil num texto breve.

 

HÁ A POSSIBILIDADE DESSAS DIRETRIZES SEREM APROVADAS COMO DOCUMENTO NESTA ASSEMBLEIA GERAL?

As Diretrizes para a Formação dos Presbíteros é o tema central desta Assembleia. Os bispos concentrarão esforços e atenção sobre esse tema. Por isso, esperamos que sejam aprovadas nesta Assembleia Geral. 

 


As opiniões expressas na seção “com a palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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O Terço dos Homens é uma bênção de Deus para o Brasil

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19 de março de 2018

Arcebispo de Juiz de Fora (MG) e Bispo Referencial do Terço dos Homens, Dom Gil Antônio Moreira falou, em entrevista à rádio 9 de Julho , sobre o crescimento da iniciativa de oração que tem o objetivo de resgatar para o seio da Igreja as famílias e, consequentemente, aumentar a sua participação na vida eclesial. Dom Gil também comentou sobre a 10ª Romaria Nacional do Terço do Homens a Aparecida (SP), que reuniu 70 mil pessoas, nos dias 16 e 17 de fevereiro. 

 

AINDA EXISTE A IDEIA DE QUE O TERÇO É UMA ORAÇÃO MAIS COMUM ENTRE MULHERES DO QUE ENTRE HOMENS?

Dom Gil Antônio Moreira – Essa pergunta sobre a mulher e o homem é interessante. Antigamente, quando se falava em Terço, eram mais as mulheres do que os homens – embora já houvesse muitos homens que rezavam o Terço. Eu mesmo, quando criança, via muitos homens rezando o Terço na minha paróquia e na minha família, e muitos tinham o costume até de carregar o Terço no bolso por onde andavam, pois em qualquer lugar se pode rezá-lo. Vi também muita valorização do Terço no meu seminário por parte dos padres, dos bispos. O costume de homens rezarem o Rosário não nasceu com o Terço dos Homens, mas, de qualquer maneira, essa mentalidade de ser uma oração muito mais rezada pelas mulheres do que pelos homens, isso parece ter invertido. As mulheres continuam rezando, mas agora os homens descobriram esse método de oração. 

 

COMO O SENHOR DEFINE ESSA DEVOÇÃO?

Eu gosto de repetir que a oração do Terço não é só uma devoção popular, ela é uma reflexão, uma contemplação dos mistérios de Cristo. Aliás, o Beato Paulo VI falou na [Exortação Apostólica] Marialis Cultus , São João Paulo II falou na [Carta Apostólica] Rosarium Virginis Mariae , e o Papa Emérito Bento XVI falou em algumas alocuções. No Terço, o importante é a contemplação por haver esse caráter cristológico. Quando o Terço dos Homens vai crescendo, nós temos a convicção de que vai crescendo o conhecimento de Cristo no coração dos homens. As quatro modalidades de contemplação que temos são uma reflexão sobre a vida de Cristo, e quem pode mais nos falar sobre Cristo é Maria. Imaginemos como Maria viu Jesus na infância, nos momentos da vida pública, depois nos momentos dolorosos, nos momentos gloriosos. 

 

A QUE O SENHOR ATRIBUI O CRESCIMENTO DO TERÇO DOS HOMENS?

Em primeiro lugar, eu atribuo à grande propaganda de um homem para o outro, o que funciona dentro do Terço dos Homens. Nós sempre pedimos aos participantes que na semana seguinte tragam mais um, que façam o convite a outros homens. Esse corpo a corpo é muito interessante. É bom lembrar que o Terço dos Homens não é uma oração corrida de 15 minutos; é uma oração bem-feita. Eles gastam geralmente uma hora para rezar o Terço, rezam pausadamente, há cantos nos intervalos dos mistérios. Tem meditação, muitas vezes, da Palavra de Deus. Depois, o apoio direto ou indireto dos padres e bispos nas paróquias. Isso dá autoridade à iniciativa. Agora também a divulgação pela televisão ( TV Aparecida , Canção Nova e Rede Vida ). Os grupos do Terço dos Homens, hoje, se organizam para ajudar os mais pobres, ajudar uns aos outros, resolver problemas que, às vezes, são difíceis, como até de emprego. Esse crescimento se dá, nesta forma, de uma ação missionária, de um grupo para o outro. Eu acho que o Terço dos Homens é uma bênção do céu, porque leva o homem a rezar de uma forma simples, não complicada, que não precisa de uma estrutura, de um estatuto. Precisamos apenas de espontaneidade, e essa espontaneidade é que tem dado certo. 

 

COMO O SENHOR AVALIA A 10ª ROMARIA DO TERÇO DOS HOMENS?

É uma grande alegria ver mais de 70 mil homens na Romaria, é um número bastante grande, bastante consolador. O que significa pessoas que saem do Brasil inteiro, às vezes gastando muito para vir de Manaus (AM), do Nordeste e viajando muitas vezes de ônibus? Significa uma grande devoção de todos esses homens a Maria. Essa devoção não é vazia. Ela leva à Eucaristia, ao compromisso com a Igreja. Todos esses homens vão se integrando cada vez mais nas suas comunidades, uma verdadeira conversão de muitos homens nesse país. A conversão desses homens tem efeitos na sua família, um efeito restaurador. Agradeço a Deus, porque vejo isso como uma grande bênção para o Brasil, tão complicado, e para nossas famílias, tão agredidas por essas frentes indiferentes ao Cristianismo, à dignidade,  à família. Essa 10ª Romaria do Terço dos Homens me parece ser, de fato, uma grande bênção de Deus para todo o Brasil. 

 

COMO SURGIU O MOVIMENTO TERÇO DOS HOMENS NO BRASIL?

Eu estive olhando um pouco da história do Terço dos Homens e encontrei referências de 1912, no grupo de homens na Alemanha (certamente houve outros grupos também na Europa e outras partes do mundo). Em 1936, tivemos também um grupo no Brasil. Esse grande movimento nasceu há pouco tempo. Eu observo que surgiu inicialmente dentro do Movimento de Schoenstatt, e muitos homens começaram a se organizar para rezar o Terço. Depois, esse exemplo foi imitado nas paróquias e dioceses. Nós temos grupos de que atingem entre 2 mil e 3 mil homens. É comum encontrar muitas paróquias com 500, 600 homens. Esse movimento cresceu, expandiu-se pelo Brasil inteiro. Foi assim que nasceu. Não posso precisar a data e nem como, mas nasce espontaneamente por conhecimento, por contato, por vizinhança: uma paróquia sabe que a outra tem, e os homens vão lá e fundam o Terço. Aqui ele é um movimento puramente leigo, ele não nasce da hierarquia, mas nasce da base, apoiado, claro, pela hierarquia, porque a Igreja sempre valorizou muito a oração do Rosário. 

 

ESSA INICIATIVA TAMBÉM ESTÁ ESTIMULANDO A FORMAÇÃO DE GRUPOS DE MULHERES?

Sim, em muitos lugares estão organizando o Terço das Mulheres, e é interessante ver também esse crescimento. No Santuário de Aparecida, há também a Romaria do Terço das Mulheres. É bonito ver que a família também se organiza dentro dos seus próprios elementos, o homem, a mulher. Amanhã, quem sabe, podemos organizar o Terço dos jovens, das crianças. Essa divisão não é uma divisão negativa, é uma divisão positiva. Cada um dentro da sua modalidade, dignidade, das suas características próprias, do jeito que Deus nos criou. Homem e mulher vão se organizando para aproveitar esse grande dom de Deus, que é essa oração tão fácil de ser rezada e que nos traz benefícios tão grandes no conhecimento e no amor a Cristo.

(Colaborou: Cleide Barbosa, da Rádio 9 de Julho)
 

 

 

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‘A Faculdade de Teologia existe para estar a serviço da Igreja’

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13 de março de 2018

O Padre Boris Agustín Nef Ulloa tomou posse como Diretor da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da PUC-SP, em 27 de fevereiro. Aos 51 anos, Padre Boris é chileno, de Concepcion, e foi ordenado sacerdote na Arquidiocese de São Paulo em 5 de junho de 1999. É Bacharel em Ciências Biológicas e Teologia, e Mestre e Doutor em Teologia Bíblica. Na Assunção, foi Coordenador de Graduação por quatro anos e, por dois anos, coordenou o programa de pós-graduação.

 

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o novo Diretor destacou que assume a função com o desafio de tornar a instituição mais fiel à sua missão de servir à Igreja e de colocar em prática as novas orientações da Constituição Apostólica Veritatis Gaudium, sobre as universidades e as faculdades eclesiásticas, publicada em 29 de janeiro. Confira a íntegra da entrevista.

 

O SÃO PAULO – COMO O SENHOR ACOLHE A NOVA MISSÃO?

 

Padre Boris Agustín Nef Ulloa – Depois do trabalho que eu realizei na faculdade nos últimos oito anos, a maior parte dos meus colegas, em conversas separadas, sempre me disseram que eu deveria ser candidato a Diretor da Faculdade, mas eu sempre resisti. Como havia a necessidade de apresentar uma lista tríplice de candidatos ao Arcebispo, eu acabei sendo um dos indicados e fui nomeado. Quando eu assumo alguma coisa, eu me dedico muito. Também sei que não vou trabalhar sozinho, pois o Padre Donizete José Leite Xavier, Diretor-Adjunto, é um bom colega. Creio que terei um bom relacionamento com a Reitora da PUC-SP [Maria Amalia Pie Abib Andery]. Quando eu era Coordenador do  programa de pós-graduação, ela era Pró-Reitora Acadêmica da pós-graduação, e, então, trabalhamos muito em sintonia. Nessa época, recebemos muito apoio dela para elevar a nota do programa de pós-graduação da Teologia.

 

E COMO ESTÁ A FACULDADE HOJE?

A graduação é o cartão de visita da instituição de ensino superior. Nós temos o curso de Teologia nos períodos diurno, no campus Ipiranga, e noturno, no campus Santana. Cerca de 90% dos estudantes do período diurno são candidatos às ordens sacras, ou seja, seminaristas. Os outros 10% são religiosas ou leigos. Já no curso noturno, 50% são candidatos ao diaconato permanente. Os demais são leigos em geral e algumas religiosas. Quanto à pós-graduação, como eu disse antes, nossa nota na Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] subiu de 3 para 4. Agora, estamos aguardando a resposta do credenciamento do doutorado, que em breve sairá. Nossa pós-graduação foi a única que subiu de nota no último quadriênio entre os 21 programas de Teologia e Ciência da Religião do Brasil.

 

QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS DA INSTITUIÇÃO?

Um é tornar o curso mais acessível para os leigos. Uma das nossas metas é encontrar parcerias para criar fundos que favoreçam o estudo dos leigos no curso noturno e, assim, prestar um serviço maior à Arquidiocese. Não podemos pensar exclusivamente na formação de futuros presbíteros, mas também nos leigos, não só de nossa Arquidiocese, como os das dioceses da Província Eclesiástica de São Paulo. Nós já temos o Fundo de para a Formação Teológico-Pastoral de Leigos (Fortal), criado pelo Padre Valeriano dos Santos Costa, que me antecedeu na direção. Esse foi um legado que ele deixou para esta gestão, que é importante mantermos e ampliarmos para favorecer um número maior de leigos. O novo Coordenador do curso noturno é o Professor João Cláudio Rufino, que é leigo, casado, estudou em Santana e conhece a realidade do campus. Isso ajudará a valorizar mais os leigos na Faculdade. Outro desafio é quanto à participação mais efetiva dos estudantes na Faculdade. Os estatutos da PUC-SP e da Faculdade de Teologia permitem 10% de representação discente nos órgãos colegiados. Pela composição do conselho, cabem dois representantes dos estudantes, mas nem sempre eles participam. Precisamos desenvolver mecanismos para despertar interesse por essa participação, porque a Faculdade pode melhorar muito se há uma participação efetiva, responsável, crítica e colaborativa dos alunos.

 

A FACULDADE DE TEOLOGIA TEM UM TÍTULO ECLESIÁSTICO. O QUE SIGNIFICA ISSO?

Embora já faça parte da PUC-SP, que é uma universidade pontifícia, a Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção é uma instituição de ensino com título eclesiástico. Isso permite que alguém graduado em Teologia na nossa Faculdade seja admitido para pós-graduação em qualquer outra universidade pontifícia do mundo sem a necessidade de fazer um exame para admissão. No Brasil, além da nossa, existem mais duas faculdades de Teologia com título eclesiástico – PUC-Rio e a Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte (RJ). Os demais institutos de Teologia que desejam ter um título eclesiástico podem se filiar a essas faculdades eclesiásticas reconhecidas. Estão filados à nossa faculdade, a Faculdade de Teologia da PUC-Campinas; a Faculdade João Paulo II (Fajopa), em Marília (SP); o Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto, em Brodowski (SP); e os institutos de Teologia da Diocese de Mogi das Cruzes (SP), da Arquidiocese de Campo Grande (MS) e da Arquidiocese de Sorocaba (SP).

 

PORTANTO, TER UM TÍTULO ECLESIÁSTICO AUMENTA A RESPONSABILIDADE DA INSTITUIÇÃO?

Sim. Tanto que para os professores lecionarem Teologia nessas instituições precisam fazer a profissão pública da fé católica e a missio canonica (missão canônica). A Teologia possui um tripé: Sagrada Escritura, Tradição e Magistério. Todo professor de Teologia, independentemente da área, deve ser fiel ao espírito dessas três bases.  E se algum professor ensina algo que vá contra uma dessas três, é responsabilidade do diretor conversar com o docente para saber o que está acontecendo. Em relação aos estudantes, para receber o título eclesiástico de bacharel em Teologia, é preciso fazer o exame conclusivo chamado de Universa Theologia.

 

 

O QUE O SENHOR DESTACA DA CONSTITUIÇÃO APOSTÓLICA VERITATIS GAUDIUM?

Essa Constituição regulamenta e normatiza as faculdades eclesiásticas de Filosofia, Teologia e Direito Canônico dentro do espírito de uma igreja “em saída”, de um diálogo com a cultura contemporânea. Temos a missão de atualizar a nossa Faculdade com esse novo documento. Isso não diz respeito só ao projeto pedagógico do curso, mas, também, à reforma dos estatutos e regimentos não só da Faculdade, como da própria PUC-SP naquilo que diz respeito à especificidade da Teologia. A Constituição destaca, ainda, que a Teologia não existe para si mesma, não pode ser um casulo, uma seita de pessoas eleitas. Uma faculdade de Teologia tem de estar aberta e criar pontes. Ela está a serviço da Igreja. Na verdade, o Papa Francisco e a Congregação para a Educação Católica fizeram uma aplica- ção dos princípios da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium às faculdades eclesiásticas.

 

COMO A FACULDADE DE TEOLOGIA REALIZA ESSE SERVIÇO?

A Faculdade de Teologia existe para estar a serviço da Igreja e esse serviço não é só formar futuros padres ou religiosos e leigos. Também, mas não só. Por isso, vamos pedir aos chefes de departamentos para oferecerem cursos de extensão, uma necessidade da nos- sa instituição que Dom Odilo Scherer [Arcebispo Metropolitano e Grão-Chanceler da PUC-SP] manifesta há muito tempo. Nesse sentido, o sínodo arquidiocesano é uma oportunidade de colaboração da Faculdade. Ficou a tarefa para os departamentos de oferecer formação na área da renovação pastoral e da “conversão missionária”.

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‘Sou uma apaixonada por Deus e pela vida que eu abracei’

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08 de fevereiro de 2018

Formada em Filosofia, História, Pedagogia, Mestra em Educação com especialização em Pastoral Juvenil e Doutora em Psicologia pela USP, Irmã Adair Aparecida Sberga, 54, falou ao O SÃO PAULO sobre aquilo que dá realmente sentido à sua vida: ser religiosa consagrada. Há 32 anos na Congregação das Filhas de Maria Auxiliadora (Salesianas), Irmã Adair, que atualmente é Diretora Executiva da Rede Salesiana de Escolas do Brasil e Vice-Presidente da Associação Nacional das Escolas Católicas (ANEC), afirmou que a vida religiosa “é um sinal para o mundo de que as pessoas podem ser felizes quando se voltam para o seu interior, onde está o amor, onde está Deus”. 

 

O SÃO PAULO – COMO FOI O DESPERTAR DA SUA VOCAÇÃO PARA A VIDA CONSAGRADA?

Irmã Adair Aparecida Sberga – Eu participava do grupo de jovens de minha paróquia, onde nós desenvolvíamos atividades como catequese, visitas a asilos e atividades de solidariedade. Certa vez, o nosso pároco nos falou sobre se apaixonar por Jesus Cristo. Isso me tocou profundamente. Um dia, em uma procissão, eu vi uma religiosa de hábito e comecei a pensar que também poderia ser igual a ela. O desejo que sentia era de estar a serviço. No lugar de me dedicar a uma pessoa só, a uma família, queria estar disponível para servir a outras pessoas. Eu comecei a frequentar encontros vocacionais e procurei uma religiosa para conversar. Eu já havia concluído o ensino médio, tinha um bom emprego, mas deixei tudo para seguir ao chamado. No início, foi muito difícil, porque minha família não aceitava minha decisão. Aos poucos, eles foram percebendo que era um chamado de Deus. 

 

COMO A SENHORA DEFINE A VIDA CONSAGRADA A PARTIR DA SUA PRÓPRIA EXPERIÊNCIA?

É uma entrega de consagração a Deus, um serviço de doação naquilo que fazemos com total gratuidade. Não é uma fuga do mundo, mas um compromisso maior que assumimos com o mundo e com a humanidade. As palavras serviço e disponibilidade são muito fortes para mim, além do amor às crianças, adolescentes e jovens. Tanto que, por isso, sou uma irmã salesiana. Sou muito feliz. Sinto a bondade e o amor de Deus me conduzindo para dar testemunho da santidade, da radicalidade das bem-aventuranças. Quando eu decidi seguir a vida religiosa, eu manifestei a um padre minha dúvida de que se tratava mesmo de um chamado de Deus ou era só uma vontade minha. Então, ele me disse: “Minha filha, se você quer é porque Deus também quer”. Deus não vai pedir para mim algo que vá contra minha natureza. A correspondência ao chamado de Deus é justamente se sentir feliz naquilo que está fazendo. A vida religiosa é uma das formas de viver a vocação universal à santidade. 

 

COMO EXPLICAR OS VOTOS DE POBREZA, CASTIDADE E OBEDIÊNCIA NOS DIAS DE HOJE?

A obediência não significa ser uma pessoa subserviente. Mas é obedecer ao próprio Deus que se manifesta na nossa vida. O voto de obediência é estar atento àquilo que a própria vida nos coloca e deixar que Deus conduza a nossa história. Muitas vezes queremos fazer a nossa vontade, do nosso jeito. Porém, quando me coloco na perspectiva de Deus, ele me conduz para que eu possa dar os frutos que ele espera que eu dê. Portanto, é uma abertura para a ação de Deus. A castidade é a radicalidade do amor. Às vezes, as pessoas relacionam a castidade somente com sexualidade, mas ela é muito mais ampla. É a capacidade de amar e crescer no amor ao próximo. Por isso, estamos abertas a amar a todos e não somente a uma pessoa. É ter um coração indiviso que ama com mais intensidade a todas as pessoas nas suas condições de vida. Já a pobreza é a grande disponibilidade à gratuidade. O meu tempo não é só para mim, aquilo que temos, dividimos. Não é só não ter, mas a possibilidade de uma partilha maior. 

 

O QUE SUSTENTA A SUA VOCAÇÃO?

Em primeiro lugar, a oração. Nem sempre eu estou na capela, por conta da missão exigente que desempenho atualmente. Mas o tempo todo eu estou rezando. Tudo o que faço coloco na presença de Deus. Eu sinto sua presença. É essa proximidade com o divino que me sustenta. Sou uma apaixonada por Deus e pela vida que eu abracei.

Deus nos fala muito também por meio da vida comunitária. Não é simples viver em comunidade, pois convivemos com pessoas de todos os tipos. Mas a comunidade me ajuda a me constituir cada vez mais como pessoa. O tempo todo, a comunidade me dá a possibilidade de confronto para saber se estou vivendo com radicalidade aquilo que professo. Uma sustenta a vocação da outra. A vida comunitária é fundamental na vida religiosa para que não nos percamos na estrada. 

 

EM MEIO AOS MUITOS TRABALHOS, NÃO EXISTE O PERIGO DE CAIR NO ATIVISMO?

São muitas as exigências do mundo contemporâneo e muitas as atividades a serem realizadas pelos religiosos. Realmente, nós podemos cair no ativismo. Mas não é o fazer muitas coisas que conduz ao ativismo, e, sim, o modo como fazemos. Precisamos dar sentido a tudo o que realizamos. Quando trabalhamos na presença de Deus, aquilo não nos esgota. No entanto, precisamos ter consciência de que, como seres humanos, temos um limite de natureza física. Por isso, temos que ir até onde nossa saúde suporta. Porque, se nós nos esgotarmos demais, vem a irritação, o cansaço, a perda do entusiasmo e até do amor que sustenta a vida. E necessário cuidar da saúde física para ter uma boa espiritualidade. 

 

COMO FILHA DE MARIA AUXILIADORA, QUAL É O PAPEL DA NOSSA SENHORA NA SUA CONSAGRAÇÃO?

Nossa Senhora é uma presença muito especial em minha vida. Quando eu era irmã bem jovenzinha, uma religiosa me disse: “Quer salvar a famílias, reze o Terço todos os dias”. Aquela foi uma palavra de Deus em minha vida. Com essa oração, eu já alcancei muitas graças da Mãe de Jesus. Uma vez, rezando o Terço, eu vi Nossa Senhora. Isso não é impossível, quando nos abrimos para Deus, tudo é possível. Ela é uma mediadora de Deus, intercessora. Ela é uma boa mãe que nos acompanha. 

 

A SENHORA TEVE EXEMPLOS QUE A INSPIRARAM NA VOCAÇÃO?

Muitas irmãs com quem eu convivi foram mulheres muito fiéis, estudiosas, de uma grande doação, com uma sabedoria de vida que nos provocava. Elas nos davam o testemunho de coerência. Recentemente, em Natal (RN), encontrei-me com uma religiosa de 97 anos, muito lúcida, com um enorme desejo de viver a santidade. Esses exemplos de abertura de vida, desejo de viver na bondade, na pureza e nobreza de vida nos inspiram muito.

 

QUAL É A CONTRIBUIÇÃO DA VIDA CONSAGRADA PARA MUNDO?

A vida religiosa consagrada é marcada pelo despojamento e pela vivência da radicalidade e daquilo que é essencial. Nós vivemos em uma sociedade que fez a opção pelo consumo, pela materialidade e pelo individualismo. Cada vez que as pessoas vão em busca disso, se afastam do encontro com a sua interioridade. A vida consagrada nos ajuda a encontrar essa interioridade. A vida religiosa é um sinal para o mundo de que as pessoas podem ser felizes quando se voltam para o seu interior, onde está o amor, onde está Deus.

 

ENTÃO, VALE A PENA SER UMA CONSAGRADA?

Sim! Cada um tem que descobrir para o que Deus o chama e ter a abertura para esse chamado. Não dizer logo “isso não é para mim”. Deus chama, mas as pessoas precisam responder. E, se alguém recebeu o chamado à vida religiosa consagrada, será feliz assim, correspondendo ao dom que Deus lhe deu. 

 

As opiniões expressas na seção “Com a palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.
 

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‘Ciência e fé são complementares’

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12 de janeiro de 2018

Bruno Moreira de Souza Dias é bacharel em Física com habilitação em Astronomia pelo Instituto de Física da USP, e Mestre e Doutor em Astrofísica pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Em 2015, recebeu o prêmio de melhor tese de doutorado em Astronomia do IAG- USP. Ele fez pós-doutorado na Durham University, na Inglaterra. Atualmente é pesquisador e astrônomo de suporte no Observatório Europeu Austral (ESO), no Chile. Ele falou ao O SÃO PAULO de sua experiência de trabalho e sobre como concilia os estudos astrofísicos com sua fé católica. 

 

O SÃO PAULO - A ASTROFÍSICA É UM RAMO BEM ESPECÍFICO DO CONHECIMENTO. O QUE TE LEVOU A SEGUIR ESSA ÁREA?

Bruno Moreira de Souza Dias - Tenho duas inspirações marcantes na minha infância e adolescência. Minha família sempre valorizou muito a qualidade da educação, em particular, meu pai sempre estimulou a curiosidade pelos fenômenos da natureza, e costumava dizer: “Se você não sabe algo, pergunte; se eu não sei, vamos descobrir.” Lembro que no dia 3 de novembro de 1994, meu aniversário de 9 anos, houve um eclipse solar total visto do Brasil, que acompanhei com meus pais e isso me abriu os olhos para o Universo. Minha segunda inspiração foram as olimpíadas de Matemática, Física e Astronomia e clubes de ciências que participei ativamente, ganhando várias medalhas em nível regional e nacional.

 

E A TUA PARTICIPAÇÃO NESSE PROJETO NO CHILE? QUAL A IMPORTÂNCIA DE UM BRASILEIRO FAZER PARTE DESTE SELETO GRUPO DE PESQUISADORES?

O ESO é uma organização intergovernamental que conta atualmente com 15 países membros, e o Brasil está em tramitação para tornar-se o 16o. Com 55 anos de existência, o ESO é a maior organização astronômica do mundo e possui telescópios no Norte do Chile usados por astrônomos do mundo inteiro. Além dos telescópios, no ESO promovemos a pesquisa astronômica em suas sedes e também em congressos internacionais. Entre outros projetos, começamos a construção do maior telescópio óptico/infravermelho do mundo, o ELT, com espelho primário de 39m de diâmetro protegido por uma cúpula de aproximadamente 80m de altura, comparável à basílica da Sagrada Família de Barcelona.

Minha participação começou como estudante, quando estava no doutorado, e continua agora no período de pósdoutorado. Não sou o único brasileiro no ESO. O Cláudio Melo é o diretor científico do ESO no Chile, e há outros dois brasileiros. O ESO contrata astrônomos de qualquer país, seja membro ou não. Um dos objetivos do programa de fellowship, do qual participo atualmente, é que sejamos uma ponte para levar o conhecimento específico dos telescópios e procedimentos do ESO para as universidades e instituições de pesquisa do nosso país de origem. Nesse aspecto, mantenho colaborações científicas ativas com pesquisadores brasileiros e seus estudantes em diversas cidades do Brasil.

 

COMO É O DIA A DIA DE TRABALHO NESSE OBSERVATÓRIO?

Como fellow do ESO, meu trabalho tem duas partes. Devo desenvolver pesquisa astronômica de forma independente, liderar projetos e grupos de pesquisa. Essa parte é desenvolvida na sede em Santiago, além de visitas a instituições de pesquisa e congressos nacionais e internacionais para colaborações. A outra atividade é um serviço para a comunidade científica, trabalhando como astrônomo de suporte para as observações de projetos de pesquisadores do mundo inteiro que são selecionados pelo ESO. O suporte aos telescópios é feito in situ , no deserto do Atacama, onde trabalhamos por turnos de seis a 14 noites, num total de 80 noites por ano. São mais de 170 pessoas trabalhando por dia no observatório, que já foi cenário do filme “007 Quantum of Solace”. Há trabalho 24 horas por dia, diariamente. Durante o dia, é feito manutenção e preparação para passar a noite desvendando os mistérios do Universo. 

Além de operar os telescópios, desenvolvemos projetos de prevenção e manutenção dos equipamentos, e também fazemos a caracterização de novos equipamentos para oferecer estabilidade e controle sobre os instrumentos usados pela comunidade.

 

NO INÍCIO DO ANO PASSADO, SURGIRAM NOTÍCIAS SOBRE A DESCOBERTA DE PLANETAS QUE POSSUEM CONDIÇÕES DE VIDA. É POSSÍVEL MESMO QUE EXISTA ALGUMA FORMA DE VIDA NESSES PLANETAS?

A primeira descoberta de planetas fora do nosso Sistema Solar, chamados exoplanetas, aconteceu no início da década de 90. O número de exoplanetas confirmados cresceu lentamente desde então e dobrou nos últimos cinco anos, chegando a mais de 3 mil, com o advento de missões dedicadas a buscar mais exoplanetas.

Planetas gigantes do tamanho de Júpiter ou maiores são mais facilmente detectáveis. A descoberta anunciada em fevereiro de 2017 revelou sete planetas do tamanho da Terra orbitando a estrela anã vermelha TRAPPIST-1. Três desses planetas orbitam na zona habitável, o que significa que possuem temperaturas propícias para água líquida.

Esse é o primeiro requisito para buscar possíveis formas de vida. Vale destacar que a distância dessa estrela é de 40 anos-luz, mais de 2,6mi de vezes mais longe que o nosso Sol. Essa distância é pequena se comparada aos 100 mil anos-luz de diâmetro da nossa Galáxia, a Via Láctea, que possui mais de 10 bilhões de planetas do tipo da Terra, segundo estimativas recentes. Muitas novidades virão quando o novo telescópio espacial JWST for lançado ao espaço em 2019 e o ELT do ESO entrar em operação em 2024.

 

POR MEADOS DE 2017, O VATICANO REALIZOU UM CONGRESSO HOMENAGEANDO O PADRE LAMAÎTRE, REUNINDO ACADÊMICOS PARA DISCUTIR OS BURACOS NEGROS E OUTROS ASSUNTOS DA ÁREA. O QUE INTERESSARIA À SANTA SÉ ESSES ASSUNTOS? É ALGO RELEVANTE PARA A RELAÇÃO DA RELIGIÃO COM O MUNDO?

A relação do Vaticano com a Astronomia não é nenhuma novidade. O calendário civil que usamos é chamado calendário gregoriano, pois foi formulado por um comitê convocado pelo Papa Gregório XIII, em 1582, após o Concílio de Trento. Desde então, o Vaticano incentivou e promoveu estudos astronômicos. Em 1891, o Papa Leão XIII emitiu o Motu Proprio Ut mysticam , por meio do qual reinaugurou o Observatório do Vaticano, que está ativo até hoje. Entre seus objetivos está o de mostrar à sociedade que a Igreja é aberta ao diálogo com a ciência, e o faz de forma rigorosamente profissional. 

Padre Lemaître foi um astrofísico belga, contemporâneo de Albert Einstein, Edwin Hubble e Arthur Eddington, com quem discutiu suas ideias que foram, então, expandidas da Bélgica para o mundo. Ele foi pioneiro na teoria cosmológica do Big Bang, pela qual foi indicado ao Prêmio Nobel de Física, em 1952, e não ganhou, pois naquele tempo a Cosmologia não era contemplada pelo prêmio. Teorias modernas do Big Bang defendem uma singularidade gravitacional que também estaria presente em buracos negros. A detecção de ondas gravitacionais, previstas pela teoria da relatividade de Einstein e geradas em eventos como a fusão de buracos negros, abriu novos caminhos para entender o início do Universo.

 

E DE FORMA PESSOAL, TUA VISÃO DE MUNDO MODIFICOU COM O APROFUNDAMENTO DOS ESTUDOS ASTROFÍSICOS? COMO CONCILIAR TUDO ISSO COM A FÉ?

Sempre me interessei por esses assuntos desde pequeno, e os estudos acadêmicos reforçaram meu fascínio pela Astrofísica e abriram minha mente para explorar o desconhecido. O segredo na ciência é fazer a pergunta certa para a natureza e não ter medo da resposta. Partindo de um astrofísico e católico como eu, essa atitude pode parecer antagônica para uma pessoa com pouca informação sobre ciência ou sobre fé. 

Astrofísica é uma descrição bastante detalhada e rigorosa do Universo seguindo o método científico. A fé é um ato humano movido por Deus que dá assentimento à verdade divina. Em outras palavras, Deus criou o Universo (ou os universos), e, com a nossa inteligência, descrevemos por meio da Astrofísica como foi a origem do nosso Universo e sua evolução, seguindo as leis intrínsecas da natureza. 

Na área de Astrofísica, algumas perguntas populares no momento são: Como o Universo foi criado? Como foi o Big Bang? O que existia antes? Existem outros Universos? E também: Existe vida fora da Terra? Estamos sozinhos no Universo? Como os planetas e a vida se formam? Essas perguntas sobrepõem-se com muitos temas filosóficos e as respostas, parcialmente conhecidas, não contradizem de nenhuma forma a fé cristã. A ciência só pode responder sobre fenômenos naturais, enquanto o estudo da fé responde sobre temas sobrenaturais. Ciência e fé são complementares. Por exemplo, se existir vida inteligente em outro planeta, não significa que toda a história da redenção humana deve ser descartada, mas que essa aliança foi específica para nós humanos. Nem a possível existência de outros Universos tampouco qualquer teoria que descreva o que aconteceu antes do Big Bang podem provar ou refutar a existência de um Deus criador. De igual modo, a existência de Deus criador não limita os estudos em Astrofísica.

O importante nessa discussão clichê e nada trivial entre ciência e religião é que haja respeito mútuo e diálogo aberto, sempre e quando se conserve os limites do natural e do sobrenatural. 

 

As opiniões expressas na seção “com a palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.
 

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‘Vivemos um luto inacabado, uma dor para a qual não existe remédio’

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27 de novembro de 2017

Fotos e cartazes estão por todos os lados na sala, localizada no 9° andar do edifício na Rua São Bento, número 370, no centro de São Paulo, por onde já passaram mais de dez mil pessoas buscando ajuda. O local abriga, desde 2009, a sede do Movimento Mães da Sé, fundado por Ivanise Esperidião da Silva Santos, 56. Natural de Alagoas, Ivanise veio com o marido para São Paulo há 37 anos e aqui nasceram as duas filhas do casal, Fabiana e Fagna Esperidião da Silva. 

A família morava na região de Pirituba, Zona Noroeste de São Paulo e vive, ainda hoje, as consequências dolorosas do desaparecimento da filha mais velha, Fabiana, no dia 23 de dezembro de 1995, quando a adolescente tinha 13 anos. 

“Mãe, ela foi na casa da Damaris com a Luciana, mas ela já vem”, disse a irmã de Fabiana, ao ser perguntada pela mãe, que acabava de chegar em casa, sobre o paradeiro da filha. “Naquele dia minha filha tinha saído para visitar uma colega de escola que estava fazendo aniversário, mas não tinha festa. Ela foi acompanhada de uma amiga que morava há 300 metros da nossa casa. No retorno, elas se separaram e cada uma foi em direção à sua casa. Foi neste trajeto que minha filha desapareceu”, contou Ivanise, à reportagem do O SÃO PAULO. 

Como tinha começado uma chuva forte, a mãe imaginou que a filha estava esperando a chuva passar para voltar para casa. E, assim que a chuva diminui, ela pegou o guarda-chuva e foi em busca de Fabiana, mas soube que as amigas já tinham se despedido há muito tempo. “Nós morávamos na Rua Nova Araçá, número 104 e, do lugar onde elas se separaram para minha casa, não dava mais do que 120 metros de distância”, contou Ivanise. 

Após fazer o boletim de ocorrência na delegacia – depois de ser dissuadida pelo delegado na noite do desaparecimento e de ter esperado mais de três horas, no dia seguinte – Ivanise começou uma busca solitária, como ela mesma disse. Eles disseram que ela devia esperar, e que, provavelmente, a filha tinha fugido com algum namorado e logo voltaria para casa. “Mas eu conhecia minha filha e sabia que ela não faria aquilo. Já se foram quase 22 anos e eu não tive nunca mais nenhuma notícia dela”, disse, emocionada, a fundadora das Mães da Sé.

 

O SÃO PAULO – COMO FOI A FUNDAÇÃO DO MOVIMENTO MÃES DA SÉ?

Ivanise Esperidião - Eu tinha conhecido, por intermédio de uma amiga da faculdade, o Centro Brasileiro em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, que ficava no Rio de Janeiro. O Centro trabalhava com todo tipo de violação dos direitos das crianças e dos adolescentes, e o desaparecimento era um deles. Enviei a foto e os dados da Fabiana e eles prometeram divulgar. Eu já tinha ido a muitas emissoras de televisão e rádio em São Paulo, mas o desaparecimento não era uma causa que estava em pauta naquela época e pouco se falava sobre isto. Um dia, me ligaram do Rio de Janeiro. Disseram que, na novela Explode Coração, iriam divulgar o caso de crianças desaparecidas e se eu gostaria de participar. Percebi que aquela era minha oportunidade e eles divulgaram a foto e o nome da Fabiana na novela, em rede nacional. Tive muita esperança, mas não recebi nenhum telefonema com notícias sobre ela. Porém, jornalistas de grandes veículos em São Paulo me procuraram para saber mais sobre a história do desaparecimento e, naquele momento, no início de 1996, eu falei tudo o que estava vivendo. Desabafei sobre o descaso da polícia no caso da mi
nha filha e disse que, se outras mães estivessem vivendo o mesmo que eu, que nos uníssemos para buscar pelos nossos filhos. Isso foi num sábado. No domingo, comecei a receber telefonas, que não pararam até hoje.

 

E POR QUE “MÃES DA SÉ”?

No início, eu não sabia bem o que fazer e marquei com as mães que me ligavam para que nos encontrássemos na Praça da Sé, no dia 31 de março de 1996. Eu pedia que elas levassem cartazes com as fotos e os dados dos seus filhos. Quando eu cheguei ao local, naquele dia, já havia mais de 100 pessoas. Escolhi a Praça da Sé, pois lá era o local da cidade de São Paulo onde as pessoas se reuniam para reivindicar seus direitos. Nos três primeiros anos, nós trabalhamos na minha casa e só em 1999 tivemos uma primeira sede. Era um espaço coletivo, que abrigava diversas ongs e movimentos, na Praça da República. Mas, em 2009 o Governo do Estado de São Paulo pediu o espaço e nos mudamos para cá [Rua São Bento, 370].

 

QUANTAS PESSOAS JÁ PASSARAM POR AQUI E, DESSAS, HOUVE UM NÚMERO SIGNIFICATIVO DE REENCONTROS?

Nós temos mais de 10 mil registros de desaparecimentos e, desses, 4.534 pessoas foram encontradas. As pessoas vêm aqui quando não têm mais saída, quando já passaram pela delegacia, já fizeram suas buscas individuais, e nós procuramos dar apoio para essas mães. Digo mães, porque 99% das pessoas que nos procuram são mães. Os pais que vêm (ou vieram nesses 21 anos) eu quase posso contar nos dedos.

 

QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS MOTIVOS DE DESAPARECIMENTO? PODEMOS IDENTIFICAR GRUPOS MAIS VULNERÁVEIS?

A grande maioria é composta por famílias de baixa renda, algumas inclusive abaixo da linha pobreza. Há grupos mais vulneráveis sim que são compostos por pessoas com alguma deficiência ou transtorno mental; idosos com Alzheimer e adolescentes que passam por conflitos familiares. Neste caso, os desaparecimentos estão relacionados a fugas do lar. Pela nossa experiência podemos dizer também que, no caso dos meninos, grande parte é aliciada para o tráfico de drogas e, já em relação às meninas, ocorrem abusos sexuais seguidos de morte.

 

VOCÊ JÁ TEVE ALGUMA PISTA SOBRE O PARADEIRO DA SUA FILHA?

Nenhuma. Nunca ninguém a viu. Nos três meses que se seguiram ao desaparecimento eu procurava nas ruas, nos hospitais, no Instituto Médico Legal, na Região da Cracolândia. Ficava na rua, saía todos os dias em busca dela. Eu cheguei quase à loucura, não dormia, comecei a ficar doente. Enquanto mães, temos uma preocupação muito grande em dar o melhor para os nossos filhos. Dentro das nossas condições, queremos dar a eles a melhor educação, uma boa estrutura, sonhamos que eles um dia se casem, tenham também seus filhos. A Fabiana era uma menina carinhosa e muito estudiosa. Eu sabia que ela não fugiria de casa simplesmente. Hoje sei que não foi só a minha filha que desapareceu. Depois dela, eu não consegui terminar a faculdade [Ivanise cursava Direito e concluiu o 7º semestre], desenvolvi várias doenças, 7 anos depois me separei do meu esposo.

 

VOCÊ TEM ESPERANÇA DE REENCONTRAR SUA FILHA?

Sempre. No meu coração, eu sinto que ela está viva. E vou continuar procurando. Tem dias em que a saudade dói mais sabe... Nós, mães de filhos desaparecidos, vivemos um luto inacabado, uma dor para a qual não existe remédio.
 

As opiniões expressas na seção “Com a palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.
 

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Igreja trabalha pela reconciliação entre as duas Coreias

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16 de novembro de 2017

De volta ao Brasil após participar do Fórum Internacional para a Partilha sobre a Paz, promovido entre os dias 3 e 7, pela Arquidiocese de Seul, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, concedeu entrevista ao O SÃO PAULO a respeito dos propósitos do evento e sobre a realidade da Igreja na Península da Coreia. Leia a seguir a íntegra da entrevista. 

 

O SÃO PAULO - O FÓRUM PARA A PARTILHA SOBRE A PAZ FOI PROMOVIDO PELA ARQUIDIOCESE DE SEUL, NA COREIA DO SUL, DE 3 A 7 DE NOVEMBRO. QUAIS OS MOTIVOS PRINCIPAIS PARA ESSA INICIATIVA?

Cardeal Odilo Pedro Scherer - A iniciativa visou a partilha de experiências sobre a edificação da cultura da paz. Vários convidados, cardeais, bispos e leigos da América Latina falaram sobre a maneira como a Igreja contribuiu, e ainda contribui, para a superação dos conflitos nos diversos países. Dessa maneira, a Arquidiocese de Seul quis promover uma reflexão sobre o papel daquela Igreja local para a superação do conflito entre as duas Coreias e das tensões internacionais presentes naquela parte da Ásia. De fato, existe no povo a percepção do grave risco para a paz, não apenas para a Coreia, mas de um conflito perigoso e destruidor, que poderia envolver vários outros países da região, como o Japão, a China e a Rússia, além dos Estados Unidos. Portanto, a Igreja de Seul, ao tomar essa iniciativa, deseja fomentar a cultura da paz e da reconciliação entre as duas Coreias.

 

O SENHOR PARTICIPOU DESSE FÓRUM E, INCLUSIVE, PROFERIU UMA CONFERÊNCIA. QUAL FOI O MOTIVO DESSE CONVITE E O TEMA DA CONFERÊNCIA?

A cada ano, na promoção do Fórum, são convidados bispos e outras personalidades de um continente diverso para a partilha de iniciativas de paz em seus países. Dessa vez, foram convidadas pessoas da América Latina. Além de mim, estiveram o Cardeal de São Salvador, em El Salvador, Dom Gregorio Rosa Chávez; o Arcebispo de Morelia, no México, Dom Carlos Garfias Merlos; o Ex-Embaixador argentino no Brasil e na Santa Sé, Dr. Vicente Espeche Gil; e o jurista e professor colombiano, Dr. José Gregorio Hernández Galindo. Também participaram dos debates e mesas-redondas vários estudiosos e personalidades públicas locais. Foi um evento muito rico de abordagens e de experiências sobre a contribuição das Igrejas locais para fomentar a paz. Na minha exposição, apresentei, primeiramente, alguns pressupostos que orientam a ação da Igreja em favor da paz, como o próprio conceito bíblico e cristão de paz, a verdade, a justiça, o respeito à dignidade da pessoa e aos direitos humanos, além do perdão e da “purificação da memória”. E partilhei a experiência da Igreja no Brasil na superação do regime militar, do empenho da CNBB e, de maneira especial, do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e de Dom Helder Câmara. O motivo do convite, provavelmente, foi o fato de o Cardeal de Seul e eu participarmos de reuniões na Santa Sé, onde nos conhecemos. Era importante que também a ação da Igreja no Brasil fosse partilhada no Fórum.

 

QUE OUTROS TEMAS FORAM ABORDADOS?

Cada um dos demais convidados partilhou as iniciativas em favor da paz em seus países. O Cardeal de El Salvador falou do testemunho de Dom Oscar Romero; o Arcebispo de Morelia tratou da ação da Igreja na superação da violência decorrente do tráfico de drogas, sobretudo na área fronteiriça com os Estados Unidos; o Ex-Embaixador da Argentina falou do empenho diplomático da Igreja, sobretudo na superação do litígio da Argentina com o Chile sobre a área do Canal de Beagle e da Terra do Fogo; mas falou, também, do êxito favorável no diálogo entre Argentina e Brasil em relação aos projetos nucleares de ambos os países, depois da superação dos respectivos regimes militares. Nas mesas-redondas, com a participação de personalidades locais da Coreia, tratou-se de tirar as consequências das exposições feitas para a situação da própria Coreia. Houve vários momentos de entrevistas para a repercussão do Fórum na opinião pública local.

 

QUEM PARTICIPOU DO FÓRUM E QUAIS FORAM OUTROS MOMENTOS RELEVANTES? 

Além dos convidados para falar e participar dos debates, estiveram presentes bispos, padres, religiosos e diáconos, embaixadores de vários países, estudantes da Faculdade de Teologia, jornalistas e outros interessados. O Fórum possui um comitê permanente, que promove estudos e divulgações sobre os temas ligados ao Fórum. Houve, também, o envolvimento do povo de várias paróquias, onde os cardeais e bispos celebraram. O povo se interessou também em várias iniciativas para se envolver de maneira constante e permanente na cultura da paz e da reconciliação. A Igreja coreana tem a consciência de que, além da esperada superação da divisão, é preciso preparar a sociedade para a acolhida, o diálogo, o perdão e a efetiva consolidação da fraternidade e da paz, que não pode contar com vencidos e vencedores, mas com reconciliados. 

 

TRATOU-SE DE UMA INICIATIVA ISOLADA OU O FÓRUM ESTÁ RELACIONADO COM OUTRAS ATIVIDADES OU INICIATIVAS QUE SE PROPÕEM AO MESMO OBJETIVO?

Não foi uma iniciativa isolada, mas há um comitê permanente, que promove diversas iniciativas ao longo do ano, para o estudo de problemas e para fomentar a cultura da paz. Além disso, na Coreia do Sul, a Igreja promove iniciativas de apoio aos pouquíssimos católicos remanescentes no Norte, que estão sempre em perigo de perseguição e até de martírio; mas também de acolhida e de inserção social daqueles que conseguiram sair do Norte – cristãos ou não. E promove a oração e a penitência em favor da reconciliação e da paz.

 

QUE FRUTOS SÃO ESPERADOS DO FÓRUM?

Naturalmente, espera-se que a Coreia volte a ser um único país; percebe-se que, em geral, custa aos coreanos falar de “duas” Coreias, porque entendem que são um único povo e uma mesma cultura. Sabem que o processo pode ser difícil e longo, mas também têm a certeza de que essa situação não poderá durar para sempre. A maior parte do povo coreano deseja a reunificação, a paz e, sobretudo, a superação do comunismo fechado e desumano do Norte, onde o povo vive sem liberdade e reduzido a massa de manobra do regime totalitário.

 

A IGREJA NA COREIA AINDA É BASTANTE JOVEM, UMA VEZ QUE A FÉ CRISTÃ CHEGOU ÀQUELE PAÍS APENAS EM MEADOS DO SÉCULO XIX. QUAIS SÃO AS CARACTERÍSTICAS DA IGREJA CATÓLICA NA COREIA?

A Igreja na Coreia possui uma história bonita, mas também trágica. O início do Cristianismo na Península Coreana se deveu a alguns leigos estudiosos, que levaram da China a Bíblia e alguns livros sobre a fé cristã para seu País. O estudo e a leitura os levaram à fé cristã e a pedir o Batismo. Chegaram, então, os primeiros missionários, sobretudo franceses. Durante cem anos, os cristãos foram perseguidos e martirizados violentamente. Os mártires das perseguições são mais de 20 mil. Durante os primeiros cem anos, o império coreano e a cultura marcada pelo Confucionismo não aceitaram o fato de os cristãos se negarem a ver no imperador a encarnação da divindade. Portanto, a fé cristã era tida como subversiva e perigosa para a cultura e o sistema social e político. Os cristãos eram perseguidos, presos e torturados e, se permanecessem fieis à sua fé, eram decapitados. Finalmente, com a conversão cristã do último herdeiro do trono, chegou também a liberdade religiosa. Mas, logo viriam novas perseguições, sob o domínio colonial japonês, nos primeiros 50 anos do século XX. Com a implantação do Comunismo na Coreia do Norte, em 1957, as perseguições voltaram e o sangue dos mártires tornou a correr com abundância. Há centenas de causas de beatificação e de canonização em andamento. Outras centenas já foram celebradas, incluindo o primeiro sacerdote coreano – Padre André Kim, junto com seus numerosos companheiros mártires. Hoje, a Igreja Católica na Coreia conta com um pouco mais de 10% da população, algo em torno de 8 milhões de fiéis. Os evangélicos, que chegaram após a 2ª guerra mundial, somam o dobro de fiéis, divididos em numerosos grupos de “Igrejas livres”, de estilo neopentecostal. A Igreja Católica na Coreia do Sul possui 16 dioceses. Há várias dioceses no Norte, mas sem bispo, sem sacerdotes e sem povo, à espera de dias melhores e de liberdade religiosa. Até as igrejas foram destruídas, na sua maioria. A Igreja na Coreia do Sul é fervorosa, rica de vocações e muito ligada aos seus pastores e ao Papa. Nas missas dominicais, a frequência é de cerca de 30% dos fiéis. Numerosos são os missionários já enviados para outros países. Há muitas conversões e batismos de adultos. O Seminário Maior de Seul, que reúne seminaristas de três dioceses, conta com 240 seminaristas e 46 deles já são diáconos.

 

QUAIS SÃO AS MARCAS DEIXADAS POR TANTOS MÁRTIRES DA FÉ NA COREIA?

O testemunho dos mártires está por toda parte e o povo lhes tem grande veneração. Impressiona como, apesar das violentas perseguições e dos martírios, o povo perseverou na fé. Os sacerdotes e bispos tiveram que servir o povo às escondidas, geralmente à noite. Hoje, há numerosos santuários que lembram o lugar do nascimento ou do martírio deles e o povo os frequenta e venera, vindo também de outras partes da Ásia. 

 

DESDE OS PRIMEIROS TEMPOS DO CRISTIANISMO, OS CRISTÃOS ENFRENTAM O MARTÍRIO. TERTULIANO, CÉLEBRE TEÓLOGO DO SÉCULO IV, JÁ DIZIA QUE “O SANGUE DOS MÁRTIRES É SEMENTE DE NOVOS CRISTÃOS”. ISSO SE CONFIRMA MAIS UMA VEZ NA COREIA?

Sim, isso continua se confirmando também naquele País. A esperança é que também a Igreja–mártir da Coreia do Norte possa ressurgir e florescer. Essa esperança está presente nas comunidades do Sul. Em outros países da Ásia, isso também acontece. No Vietnã, sob o regime Comunista fechado, a Igreja foi violentamente perseguida, com numerosos mártires. Hoje, há um grande florescimento da fé, com muitas vocações, apesar de a liberdade religiosa ainda ser restrita.
 


 

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‘O vicentino é uma pessoa simples, que deseja transformar o mundo pela caridade’

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07 de novembro de 2017

Presente em mais de 150 países, entre os quais o Brasil, a Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP) comemora em 2017 os 400 anos do carisma vicentino, inspirado no exemplo de solidariedade aos mais pobres de São Vicente de Paulo (1581-1660).  

Em entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO , Renato Lima, primeiro brasileiro a ocupar o cargo de Presidente Mundial da SSVP, fala sobre as bases de ação dos vicentinos e dos desafios da iniciativa em âmbito internacional. “O vicentino é uma pessoa simples, que deseja transformar o mundo pela caridade, seguindo ao apelo de Nosso Senhor Jesus Cristo. É uma pessoa de oração, que busca a conciliação e a harmonia”. 

Leia a seguir a íntegra da entrevista.

 

O SÃO PAULO – A SOCIEDADE SÃO VICENTE DE PAULO (SSVP), FUNDADA HÁ QUASE 200 ANOS POR ANTÔNIO FREDERICO OZANAM, CONTA HOJE COM APROXIMADAMENTE 800 MIL VOLUNTÁRIOS (VICENTINOS). O SENHOR PODERIA NOS CONTAR UM POUCO DA HISTÓRIA DA SSVP, DE SUA ESTRUTURA E POR QUE O TRABALHO DESENVOLVIDO AINDA É TÃO IMPORTANTE?

Renato Lima - A SSVP foi fundada em 1833 por sete amigos franceses, com a finalidade de visitar pessoas carentes nas periferias de Paris, na França, ajudando-as no que fosse possível, não só materialmente, mas, sobretudo, no aspecto espiritual e moral. Desde então, o movimento cresceu e hoje alcança 152 países. O Conselho Geral Internacional (CGI), do qual sou Presidente, fica em Paris. Em cada nação, existe o Conselho Superior (no Brasil, chama-se “Conselho Nacional do Brasil”), que é responsável pela organização da entidade. Em cada paróquia, temos as Conferências Vicentinas, que são os grupos de caridade que atuam nas visitas domiciliares. Penso que o trabalho vicentino é muito importante para a sociedade civil, em complemento às ações governamentais. Ser vicentino é um presente de Deus!

 

ENTRANDO UM POUCO NA SUA HISTÓRIA, O QUE O IMPULSIONOU A SER UM VICENTINO E COMO FOI A SUA TRAJETÓRIA ATÉ TORNAR-SE PRESIDENTE MUNDIAL DA SSVP?

Eu ingressei nos vicentinos em 1986, na cidade de Campinas (SP), onde eu estudava o ensino médio. Lá na escola militar, eu conheci a SSVP. Sempre quis ajudar as pessoas e encontrei na SSVP o local ideal para a prática da caridade com organização e seriedade. Ao longo desses 31 anos de caminhada vicentina, já fui Presidente de Conferência, Presidente de Conselho, já atuei nos setores de juventude, formação e comunicação. Portanto, Deus vinha me preparando para voos mais altos. E Ele assim o quis, e em 2016 fui eleito, pela maioria dos países, para ocupar a função de 16º Presidente Geral Internacional. Estamos na função há um ano, e com o apoio de uma diretoria fantástica, temos avançado muito, sem jamais perder de vista as conquistas alcançadas por meus antecessores. Porém, ser Presidente mundial jamais pode me ensoberbecer; afinal, o que prevalece são os propósitos do Senhor. Somos meros instrumentos da graça D’Ele.

 

COMO É A ATUAÇÃO TÍPICA DE UM VICENTINO? E DO PRESIDENTE MUNDIAL? O SENHOR TAMBÉM PRECISA VISITAR AS A FAMÍLIAS ASSISTIDAS PELA SUA CONFERÊNCIA?

O vicentino é uma pessoa simples, que deseja transformar o mundo pela caridade, seguindo ao apelo de Nosso Senhor Jesus Cristo. É uma pessoa de oração, que busca a conciliação e a harmonia. O Presidente mundial não é diferente de qualquer vicentino. Eu mesmo continuo ativo na minha Conferência (Nossa Senhora de Fátima), onde temos reuniões e visitas semanais. Se eu não fosse ativo na Conferência, seria um presidente artificial. Portanto, qualquer vicentino, não importando o cargo que ocupa na estrutura da Sociedade São Vicente de Paulo, é sempre a mesma pessoa. Faço sim visitas às famílias carentes de nosso grupo, e essa é a atividade que mais me dá alegria: poder ajudar a quem precisa. Se cada pessoa, no mundo, fizesse uma boa ação por dia, mudaríamos o planeta. Eu sou uma pessoa normal: sou casado, tenho filhos, levo as crianças ao colégio, faço compras no mercado, passeio com a família, viajo. Não sou diferente de ninguém.

 

O BRASIL TALVEZ SEJA O PAÍS COM O MAIOR NÚMERO DE VICENTINOS - SÃO APROXIMADAMENTE 153 MIL. O SENHOR CRÊ QUE HAJA UMA CONFLUÊNCIA NATURAL DA MISSÃO VICENTINA COM A SOLIDARIEDADE DOS BRASILEIROS?

O movimento vicentino, que chegou ao Brasil em 1872, cresceu muito e superou até mesmo o berço da entidade, a França. Hoje, o Brasil é o maior país vicentino do mundo, seguido pela Índia e pelos Estados Unidos. O povo brasileiro é muito solidário, e obviamente isso ajuda nos apelos e nas campanhas vicentinas. Mas, eu considero que outros fatores também fizeram com que a SSVP tivesse crescido tanto no nosso País: apoio da Igreja, forte religiosidade do povo, miséria crescente e reconhecimento dos poderes públicos. Todos esses elementos, juntos, na minha ótica, são os responsáveis pelo crescimento dos vicentinos em solo brasileiro. Aproveito para convidar os católicos que não fazem parte de nenhuma pastoral em suas paróquias: procurem os vicentinos e venham servir a Cristo pela prática da caridade!

 

EM 2017, CELEBRAM-SE OS 400 ANOS DO CARISMA VICENTINO. O SENHOR PODE COMENTAR COMO AS QUATRO AÇÕES CONCRETAS PROPOSTAS PELO PADRE TOMAZ MAVRIC (LEIA MAIS DETALHES EM HTTP://WWW.SSVPBRASIL. COM.BR/?P=1262) PARA A COMEMORAÇÃO DESSA DATA CONCATENAMSE COM O ESPÍRITO VICENTINO?

A SSVP está apoiando todas as ações da Família Vicentina, não só nas celebrações dos 400 anos, mas em tudo. Este ano, haverá um simpósio em Roma com a presença do Papa Francisco, além de outras excelentes iniciativas. Um dos dez itens do planejamento estratégico de nossa gestão é justamente esse: colaboração permanente e profunda com a Família Vicentina. Temos muitos projetos comuns. O nosso desafio é colocar as ideias em prática e atuar realmente de maneira integral na globalização da caridade. O espírito fraterno da solidariedade, que nasceu com São Vicente de Paulo, segue nos nossos corações e no nosso sangue. 

 

DESDE 2012, A SSVP PARTICIPA DO CONSELHO ECONÔMICO E SOCIAL DAS NAÇÕES UNIDAS (ECOSOC). COMO TEM SIDO A PARTICIPAÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DA SSVP NAS DISCUSSÕES NESSE FÓRUM?

A SSVP participa não só do Ecosoc como de outros foros internacionais no âmbito das Nações Unidas, do Parlamento Europeu e da Santa Sé. E queremos ampliar ainda mais as parcerias, acordos e convênios internacionais. Por exemplo, estamos nos aproximando da Ordem de Malta, que possui um trabalho solidário fenomenal na ajuda a crianças, idosos, refugiados e mulheres em situação de risco social. Este mandato está fazendo de tudo para envolver mais a SSVP nesse aspecto institucional. Criamos, inclusive, uma vice-presidência específica para ficar responsável por esse setor. Sugiro que os interessados no trabalho vicentino possam conhecer melhor o Conselho Geral acessando o nosso site

 

As opiniões expressas na seção “com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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‘A opinião pública tem o direito de conhecer a verdade, sem a manipulação ideológica’

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25 de outubro de 2017

Os dias seguintes à coletiva de imprensa de 18 de outubro na Cúria Metropolitana (leia detalhes na página 14) foram de intensas críticas ao apoio da Arquidiocese de São Paulo à Plataforma Sinergia, que detém a tecnologia para a produção da Farinata, produto alimentício que será adotado pela Prefeitura de São Paulo como parte do projeto “Alimento para Todos”, estruturado a partir da lei 16.704/2017, que cria a Política Municipal de Erradicação da Fome e da Promoção Social dos Alimentos.

Em entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO , o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, reitera o apoio à proposta da Plataforma Sinergia como uma alternativa para a solução do problema da fome, do descarte de alimentos e do consequente dano ambiental pelo excessivo desperdício. Ele também lamenta que a opinião pública não tenha tido acesso às informações corretas da proposta e que as reflexões na sociedade ainda não estejam sobre o ponto central do programa. “Na discussão em questão, o que deveria estar em primeiro lugar é a pessoa do pobre, a luta contra o vergonhoso desperdício de alimentos, que gera muitos danos ambientais, e o bem da ‘casa comum’. Isso deveria estar acima de interesses partidários e constituir a plataforma comum para o engajamento de todos”, afirmou. 

Leia a seguir a íntegra da entrevista.

 

O SÃO PAULO - MESMO APÓS A COLETIVA DE IMPRENSA REALIZADA NO DIA 18 PELA ARQUIDIOCESE, A PLATAFORMA SINERGIA E A PREFEITURA DE SÃO PAULO, PERMANECEM QUESTIONAMENTOS SOBRE A QUALIDADE E A VIABILIDADE DO USO DA FARINATA PARA AUXILIAR NO COMBATE À FOME NA CIDADE. A QUE O SENHOR ATRIBUI A INSISTÊNCIA DE ALGUNS SETORES DA SOCIEDADE EM DESQUALIFICAR ESSA INICIATIVA DA PLATAFORMA SINERGIA?

Cardeal Odilo Pedro Scherer - A opinião pública tem o direito de ter informações corretas sobre as questões que estão em jogo nessa polêmica: 1)  Sobre o programa da Prefeitura – “Alimento para Todos”, é a Prefeitura que deve dar as explicações adequadas; 2) A lei municipal, assinada pelo Prefeito João Doria, é resultante de um projeto de lei na Câmara Municipal, de autoria do vereador Gilberto Natalini, que foi aprovado com grande consenso. Essa lei trata do direito ao alimento e das medidas para viabilizar o que ela prevê. A própria lei é de domínio público e está na base do programa “Alimento para Todos”; 3) A Farinata, produto alimentício semelhante à farinha, é obtida da transformação de vários alimentos ainda bons, transformados através de um processo próprio para lhes proporcionar ainda uma ulterior durabilidade. Da Farinata podem ser produzidos vários produtos prontos para o consumo, como pão, macarrão, bolo, pizza etc. Não se trata de “rejeitos” de alimentos, nem de alimentação de qualidade questionável. Quem deve dar as informações sobre a Farinata é a detentora de sua patente, a Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) chamada Plataforma Sinergia. A insistência em desqualificar a Farinata, ao meu ver, tem diversos motivos, entre os quais a forma inadequada como foi apresentada ao público, a desinformação, o envolvimento ideológico e partidário e o interesse eleitoral de diversos setores. Infelizmente, a Farinata foi identificada com um derivado dela, logo “carimbado” como “ração” e tido como “indigno” dos pobres e da pessoa humana. Grande equívoco, se não foi maldade! O repasse irrefletido desse equívoco pelas mídias não deu mais espaço para uma compreensão serena e objetiva da própria Farinata e das possibilidades alimentares que ela pode oferecer. Volto ao início da resposta: a opinião pública tem o direito de conhecer a verdade das coisas, sem a manipulação ideológica de quem quer que seja.

 

O SENHOR JÁ DISSE EM OUTRAS ENTREVISTAS QUE A INICIATIVA DA PLATAFORMA SINERGIA NÃO É UM PROJETO DO GOVERNO JOÃO DORIA. PODE NOS RECORDAR QUANDO TOMOU CIÊNCIA DA PROPOSTA DA PLATAFORMA E COMO A TEM APOIADO DESDE ENTÃO?

De fato, desde 2012, acompanho com interesse a elaboração da proposta da Plataforma Sinergia, porque creio que ela vai na linha da solução de três questões que apelam à consciência e preocupam muito a Igreja: 1) O escândalo da fome no mundo e no Brasil também; 2) O também escândalo do enorme desperdício de alimentos bons para o consumo. O Brasil é um campeão no desperdício de alimentos; 3) O pesado dano ambiental causado pelo desperdício e mau aproveitamento dos alimentos.

 

ALGUMAS PESSOAS, INCLUINDO ALGUNS LÍDERES RELIGIOSOS, AFIRMAM QUE A ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO NÃO DEVERIA APOIAR UMA INICIATIVA QUE DARÁ “MIGALHAS AOS POBRES”. O QUE O SENHOR TEM DIZER A RESPEITO?

Penso que devemos ter diante de nós a meta ideal a ser buscada e lutar por ela. Neste caso, a meta é que os pobres tenham condições de vida digna, respeito à sua humana dignidade e seus direitos, alimento com qualidade, moradia, roupa, casa, escola, trabalho, segurança, além de outros bens necessários à vida digna. Para alcançar essas metas, todos devem se empenhar e, mais ainda, os governantes. No entanto, não devemos deixar de fazer aquilo que hoje nos é possível, mesmo que ainda não satisfaça integralmente as necessidades e os direitos dos pobres. Além do mais, os pobres precisam ser ajudados aqui e agora. O Papa Francisco nos lembra: pobre tem nome, rosto, idade, momento e lugar onde vive. Pobre não é simplesmente uma categoria ideal ou ideológica. Pobre é pessoa concreta. Se não temos ainda a solução ideal, não devemos deixar de fazer o que está ao nosso alcance.

 

QUE RESPOSTA O SENHOR DARIA A OUTRAS CRÍTICAS QUE PODEM SER RESUMIDAS NO SEGUINTE PENSAMENTO: “AO APOIAR UMA INICIATIVA COMO ESSA, A IGREJA ESTÁ ENXERGANDO O POBRE COMO UM ‘COITADINHO’ E DEIXANDO DE COLABORAR PARA QUE ELE, EFETIVAMENTE, MUDE SUA CONDIÇÃO DE VIDA”?

A resposta já está na questão anterior, mas acrescento que o pobre, para a Igreja, não é um “coitadinho”. Esse é um clichê aplicado à Igreja de maneira preconceituosa, mas é equivocado. Para a Igreja, o pobre é uma pessoa concreta, com dignidade e direitos a serem respeitados e valorizados em cada pessoa pobre. Talvez se pretenda que a Igreja deva se alinhar a um partido específico ou não deva trabalhar com determinado governante, porque pertence a certo partido... Mas, a Igreja não é um partido e tem suas motivações próprias para agir e não deve ser instrumentalizada para fins político- partidários. Na discussão em questão, o que deveria estar em primeiro lugar é a pessoa do pobre, a luta contra o vergonhoso desperdício de alimentos, que gera muitos danos ambientais, e o bem da “casa comum”. Isso deveria estar acima de interesses partidários e constituir a plataforma comum para o engajamento de todos. 
 

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‘Sofrimento na Síria é geral, mas os cristãos são o elo mais fraco’

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24 de outubro de 2017

O cardeal italiano Dom Mario Zenari evita entrevistas: “Por causa do trabalho que eu faço”, diz. Não por acaso. Ele é Núncio Apostólico na Síria, que está em plena guerra civil há sete anos, num conflito definido como a maior catástrofe humanitária depois da Segunda Guerra Mundial. É um dos poucos embaixadores que sobraram num país de violência com cifras, de fato, astronômicas. A guerra na Síria deixou ao menos 400 mil mortos, 5 milhões de refugiados, 6,3 milhões de desalojados e milhares de feridos. 

O SÃO PAULO procurou Dom Zenari em julho e conseguiu uma entrevista exclusiva apenas em 22 de setembro. A conversa, na Casa Santa Marta, residência  do Papa, no Vaticano, durou uma hora. Ele fez uma análise sobre a complexa situação da Síria, explicou como vivem os cristãos e o que a Igreja tem feito. “Se falamos de sofrimento, todos estão no mesmo barco. O sofrimento é transversal”, afirma. “Mas, os cristãos são o elo mais fraco.” 

Dom Zenari chegou à Síria há mais de oito anos para ser o representante do Papa, mas já está em missões diplomáticas da Santa Sé há 37 anos, sendo 18 como Núncio. Além da Síria, já atuou na Costa do Marfim e no Sri Lanka. Há exatamente um ano, o Papa Francisco o surpreendeu com a nomeação para Cardeal. “Um Cardeal deve estar pronto para dar a vida pela fé. Logo pensei que essa púrpura vai honrar o sangue de tantas crianças inocentes que morreram na Síria”, diz.
 

O SÃO PAULO – O SENHOR ESTAVA NA ALEMANHA NA QUEDA DO MURO, NO SRI LANKA E NA COSTA DO MARFIM DURANTE GUERRAS CIVIS. COMO ESSAS EXPERIÊNCIAS O PREPARARAM PARA A SÍRIA?

Dom Mario Zenari – Eu sempre brinco que sou um Núncio veterano de guerra, porque estou há 18 anos em países em guerra civil. Mas, nos outros lugares, o conflito foi limitado. Já na Síria, desde o início, tive a percepção de que o fogo se estenderia aos países vizinhos. E também se acendeu muito longe, com os ataques terroristas na França, na Alemanha, na Inglaterra... Nos primeiros dois anos, consegui visitar a Síria. É um país belíssimo, um paraíso para arqueólogos, com civilizações que remetem a 5 mil anos antes de Cristo.

 

ALI ESTÁ TAMBÉM A HISTÓRIA DA IGREJA, NÃO?

Por que será que 1,6 bilhão de pessoas se chamam “cristãos”? Poderíamos ser chamados “jesuanos”, “nazaretanos”, por causa de “Jesus”, mas alguns anos depois de Jesus ter ascendido ao céu, segundo os Atos dos Apóstolos (11,26), pela primeira vez os discípulos do Senhor foram chamados “cristãos”, em Antioquia da Síria. Lá, nos deram esse nome. Antioquia, sob o protetorado francês, passou à Turquia, mas era na Síria.

 

E SÃO PAULO ESTEVE NA SÍRIA, CERTO?

Todos lembramos do “Caminho de Damasco”, onde este jovem Saulo, um fundamentalista, teve a visão resplandecente do Senhor. Ele se tornou o apóstolo dos povos nos portões de Damasco. E quando o Senhor diz a Ananias, vá à rua chamada “Direta”; em Damasco ainda é preservada essa estrada reta. São Paulo andou por lá. Até a chegada do Islamismo, no ano 636, a Síria era toda cristã. Deu seis papas à Igreja e quatro imperadores. E Jesus nasceu em Belém, na noite de Natal, quando o governador da Síria era Quirino. Politicamente, Jesus nasceu na província romana da Síria. Não podemos esquecer disso. 

 

HOJE, PORÉM, PREVALECE O ISLÃ…

Antes do conflito atual [há 7 anos], a Síria tinha 23 milhões de pessoas. Destas, 70% eram muçulmanos sunitas, 12% alauitas, que podem considerados xiitas, mas são alauitas. Depois, cristãos eram 6%. No pós-Segunda Guerra, os cristãos eram 35%, e diminuíram com a queda da natalidade. Os muçulmanos têm famílias numerosas. Vi casos de 20 a 26 filhos. Já os cristãos têm dois ou três. Infelizmente, com o conflito, os grupos minoritários são o elo mais fraco. E, entre os cristãos, porque não são armados, a metade decidiu partir. Hoje, somos 2% a 3% da população.

 

A SITUAÇÃO PIOROU JUSTAMENTE NOS ANOS EM QUE O SENHOR JÁ ESTAVA NA SÍRIA? 

É um desastre. Cheguei na Síria dois anos antes do conflito. Era um país que se desenvolvia e, com os ventos da Primavera Árabe, mergulhou nessa onda de violência. O conflito foi se complicando. De manifestações pacíficas por mais liberdade, mais respeito aos direitos humanos, com a repressão por parte do regime [do presidente Bashar al-Assad], chegou-se à luta armada. Com a entrada de forças externas, grupos jihadistas [fundamentalistas islâmicos], chegou-se a uma guerra por procuração [proxy war], e depois internacional. De um lado, a Arábia Saudita e os países do Golfo; de outro, o Irã. E, ainda, a intervenção da Rússia, por motivos estratégicos, dos Estados Unidos e da Turquia.

 

E O ESTADO ISLÂMICO…

Quando um corpo é doente, outros problemas aparecem. É um fenômeno extra e todos estão de acordo em expulsá-lo, com diferentes estratégias. Porém, são sete ou oito bandeiras que lutam na Síria e, uma vez eliminado o Estado Islâmico, serão uma contra a outra. Até agora, não se enxerga acordo quanto ao futuro da Síria.

 

COMO VIVEM OS CRISTÃOS?

Se falamos de sofrimento, todos estão no mesmo barco. Sunitas, xiitas, alauitas, drusos… o sofrimento é transversal. Não se pode dizer que um grupo sofre mais. Numericamente sim, porque a maioria é sunita. Mas todos tiveram mortos, feridos, refugiados, desalojados, vilas destruídas, fábricas perdidas. Todos. Porém, se olhamos para o risco, é maior para os minoritários e, portanto, para os cristãos.

 

EXISTE O RISCO DE QUE OS CRISTÃOS DESAPAREÇAM DA REGIÃO?

Ainda é algo incerto, porque este regime começou mais de 50 anos atrás, sustentado por uma minoria de alauitas, 12%, e foi esperto: deu privilégios às minorias para ter apoio político. Os cristãos não tinham problemas de liberdade religiosa. Os tribunais eclesiásticos foram reconhecidos, construíam igrejas, faziam procissões. E as relações com as comunidades muçulmanas, mais de 70% da população, eram boas. O dia de Natal ou a Páscoa era sem trabalho para todos. 

Uns cumprimentavam os outros nas festas. O Islã na Síria não era fanático, era moderado. Agora as coisas mudam.

 

HOJE EXISTE DIÁLOGO ENTRE AS RELIGIÕES?

No nível dos bispos, imãs, sacerdotes, há um bom diálogo. Há também o diálogo ecumênico: diante de 70% a 80% de muçulmanos, os cristãos se unem, sejam ortodoxos ou católicos. Fala-se só de cristãos e muçulmanos.

 

OS CLÉRIGOS CRISTÃOS DESAPARECIDOS NOS ÚLTIMOS ANOS FORAM CAPTURADOS PELO ESTADO ISLÂMICO?

Não se sabe. Temos cinco eclesiásticos desaparecidos há mais de quatro anos: dois bispos ortodoxos e três padres. Não se sabe nada do destino deles. Fala-se de 30 a 40 mil desaparecidos nestes anos, sequestrados, utilizados para trocas, e no meio-tempo muitos morreram. É um enorme sofrimento.

 

MILHÕES DE JOVENS NÃO PODEM ESTUDAR NA SÍRIA. ISSO PODE TER IMPACTO POR MUITOS ANOS?

Isso varia, mas uma escola em cada três está sem uso. Cerca de 2 milhões de crianças em idade escolar não vão à escola. Quando chegam aos 18 anos, 20 anos, muitos rapazes emigram para evitar o serviço militar, porque os jovens que entraram há sete anos, se ainda vivos, estão no serviço militar. E há uma grande incerteza sobre o futuro. Eu chamo de uma “bomba”, entre aspas, a migração dos jovens. Temos uma sociedade e uma Igreja sem jovens.

 

E MUITOS ENTRE OS MIGRANTES SÃO CRISTÃOS...

A partida dos cristãos é um empobrecimento, porque, em geral, eles têm uma mentalidade universalista. Pensam no mundo, no Papa, nos outros católicos. Digo sempre: cada cristão que parte é, para a Síria, uma janela para o mundo que se fecha. A Síria arrisca se tornar uma sociedade monocultural, monorreligiosa. Os cristãos tiveram grande parte de influência histórica na Síria.

 

MAS, A IGREJA DEFENDE A LIBERDADE DE MIGRAR?

A liberdade de movimento é sacrossanta. Porém, deve-se ajudá-los também a permanecer, não só economicamente, mas espiritualmente. Se você não está sob as bombas e tem um bom trabalho, deve pensar em testemunhar a fé na Síria. Dar sua contribuição ao País. Mas, também o País deve fazer com que os cristãos se sintam bem. Nos países muçulmanos, os cristãos se sentem cidadãos de segunda classe. São países teocráticos, “repúblicas islâmicas”. Para os muçulmanos, falta muito para separar a religião do Estado e chegar ao conceito de cidadania. A Síria estava à frente nisso, tinha uma tendência laica, uma “república árabe”.

 

COMO ESTÃO AS RELAÇÕES ENTRE A SANTA SÉ E O GOVERNO ASSAD?

A Santa Sé mantém sempre o seu representante. Não o retira. E eu, junto a outros oito ou dez embaixadores, estou ali, para as igrejas e para o serviço ao País, tentando promover a paz. Grande parte das atividades da nunciatura é organizar ajuda humanitária com a Cáritas Síria e outras agências. E a Síria tem o embaixador junto à Santa Sé, que está em Genebra, na Suiça. É um canal de comunicação.

 

O SENHOR DIALOGA COM OUTROS GRUPOS, DE REBELDES, POR EXEMPLO?

Não. Aqui não me é sequer permitido, porque aí eu iria contra o governo...

 

DOM PAUL GALLAGHER, SECRETÁRIO PARA RELAÇÕES EXTERIORES DO VATICANO, DISSE ÀS NAÇÕES UNIDAS QUE É PRECISO UMA SOLUÇÃO “INTRA-SÍRIA”, ISTO É, INTERNA. É A POSIÇÃO OFICIAL DA IGREJA?

Sim. Isso é dito também por outras cadeiras: o diálogo intra-sírio. Porém, como eu dizia, há seis ou sete bandeiras externas. Cada uma tem militares e armas, mais ou menos independentes. Como é possível o diálogo entre sírios quando há outros?

 

ENTÃO, É FUNDAMENTAL, TAMBÉM, UMA SOLUÇÃO INTERNACIONAL?

O apoio da comunidade internacional é fundamental. Mas, o apoio. No entanto, estas bandeiras dão apoio ou estão implicadas no conflito? Não sei o quanto é possível um diálogo livre entre sírios. Mas queria destacar que o problema da Síria, do Iraque, do Iêmen, é, fundamentalmente, causado por países da região.

 

SÃO ELES MESMOS A RAIZ DO PROBLEMA?

O contraste que existe na Síria é entre os países do Golfo mais Arábia Saudita e o Irã. É o mesmo no Iraque, onde quem causa problemas são sunitas e xiitas. E no Iêmen. Essa é a base do problema. Entra mais a questão política do que religiosa, mas é o fato. Há antagonismo entre duas potências. Cada uma quer ter domínio sobre a região. Às vezes, digo que bastaria colocá-los na mesma mesa e, se conseguirem apertar as mãos, grande parte da questão se resolverá.

 

QUANDO O SENHOR ENCONTRA O PAPA FRANCISCO, O QUE ELE DIZ?

Ele está informado. Sabe do sofrimento das pessoas e, de fato, devo falar da minha surpresa quando ele me nomeou Cardeal. Um Cardeal deve estar pronto para dar a vida pela fé. Logo pensei que essa púrpura vai honrar o sangue de tantas crianças inocentes que morreram, tantos civis. Na história moderna das nunciaturas, sou o único núncio Cardeal. Em geral, são Arcebispos. Foi um sinal do Papa para a martirizada Síria. Recordamos, também, a oração de 7 de setembro de 2013, na Praça de São Pedro, que teve grande eco, num momento em que se pensava em intervenção militar. Depois, todos os discursos do Papa. Cada vez que ele encontra chefes de Estado e ministros, o dossiê Síria está presente. E, em 2016, a Igreja Católica financiou 200 milhões de dólares para projetos de desenvolvimento, educação, saúde, alimentação, na Síria e na região.

 

A SÍRIA TEM TANTOS MÁRTIRES. O QUE O SENHOR PENSA SOBRE O MARTÍRIO?

A palavra mártir é usada em sentido muito amplo. Falo só da Síria, e não do Iraque ou do Egito: não se pode falar de uma real perseguição contra os cristãos. Tiveram muitas ameaças, igrejas destruídas e saqueadas, insultos e algumas igrejas viraram tribunais da shari’a [lei islâmica]. Recordo três paróquias, dominadas pelo grupo Al-Nusra, onde deixam os cristãos sobreviver, com limitações, mas deixando-os rezar. Nas zonas do Estado Islâmico, não temos mais cristãos. Destaco que tantas mesquitas foram destruídas também, e tantos muçulmanos foram degolados pelo Estado Islâmico. Todos sofreram, mas os cristãos são o elo mais fraco. Têm mais riscos para o futuro. Quem sofre mais são as crianças e as mulheres, traumas físicos e psicológicos. Não vejo ainda uma saída, mas houve redução da violência em algumas zonas, um cessar-fogo para permitir a ajuda humanitária. É isso o que se pode obter agora.
 


 

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